Black Krieg – parte 3

Publicação: 9 de abril de 2010

Ao atravessar a rua 24 de Maio, foi para dentro de outra galeria, esta composta por lojas de produtos eletrônicos e relacionados. Não se interessou pelas vitrines de LCD flexível e semitransparente, preferiu acertar as escadarias que cortavam o corredor ao meio. Desceu poucos degraus antes de conferir quem estaria acima de seus ombros. Ninguém, parecia.

A camiseta preta masculina, com as mangas cortadas, havia se transformado numa regata confortável e larga, mas alguma coisa a incomodava na altura das costelas. Não mais correndo, ainda apertando o passo, lançou a mão para as costas, tentando alcançar região difícil. Percebeu que o incômodo, no entanto, vinha da abotoadura do sutiã. Parou de tentar quando passou por portas automáticas de vidro escuro. Acabava de chegar na Laser.

Desviando-se de dois nerds de olhos cobertos por capacetes de realidade virtual, partiu em direção ao banheiro. A luz negra no lugar escuro fazia suas órbitas brilharem, arregaladas, numa outra checagem. Ninguém a seguia. Empurrou a placa de plástico verde e mole até ela se debater e permitir passagem. A parede preta e bem recoberta por um vasto espelho estava iluminada em vermelho. Victoria olhou para si mesma – e para as olheiras salientes – antes de se pôr de costas para o reflexo. Mais um pouquinho e ela alcançaria o objeto que a cutucava.

_Consegui. – murmurou, voltando-se de frente para o espelho, por instinto.

Debaixo das luminárias de vidro, reconheceu um chip escondido em sua lingerie. O cenho franziu enquanto ela coçava a cabeça e retorcia os lábios ressecados. Saiu dali, já certa do lugar para onde se dirigiria. Puxou com a sola do coturno a cadeira giratória e se sentou frente a um computador. A tela descia por um fio metálico, vindo do teto abobadado. “Como eles fizeram esse teto sendo que a loja é subterrânea?”, perguntou-se. Deu de ombros, coçando o nariz irritado pela rinite. Passou o cartão de crédito pelo leitor da máquina e comprou alguns minutos.

O chip foi inserido num leitor de cartões de memória. Rapidamente uma janela saltou na tela achatada. Com o indicador, Victoria selecionou a opção “ler cartão”. Uma nova janela, uma pasta, uma página a ser carregada no browser. Sentia os joelhos fazendo pressão debaixo da superfície de plástico rígido, que servia de mesa. Vai, vai! Sussurrava em desespero a ânsia de que um site suspeito ou comprometedor fosse descoberto ali. Mordia o lábio inferior, sentindo a carne se machucar debaixo dos dentes.

_Black Krieg? – falou alto demais, num desânimo e desaprovação tão grande que fez os clientes ao redor checarem por cima de suas divisórias o que havia acontecido. Um deles enxergou a tela de Victoria e preferiu voltar para seu joguinho de Facebook – Porra, que merda!

Guardou o cartão no bolso, mas desprezou o chip encaixado no leitor de cartões. A conta ficaria aberta por mais uns cinco minutos, mas ela não se importou. Um garoto obeso viu a máquina carregada e disponível. Agarrou a oportunidade como um mendigo engole uma dose de álcool barato. Victoria já havia partido para a sessão de games, onde se debruçou num fliperama que tinha o formato das máquinas do século XX, as que funcionavam para games de luta, os tal CAPCOM. Os braços cruzados serviram de apoio para os olhos inchados de sono.

_Que merda, velho, que merda… – bufava de ódio ao concluir que aquilo havia sido apenas uma maneira idiota de se fazer publicidade de um blog. Provavelmente aqueles punks foram pagos para abordá-la de tal forma. Que vontade de trabalhar…

Um último suspiro foi suficiente para lhe dar vontade de se erguer e creditar a máquina para uns quinze, vinte minutos. Dona Helena que se fodesse um pouquinho, concluiu. O cartão de crédito permitiu que dez reais comprassem vinte minutos de simulação. Desceu a cabeça em direção a um buraco em formato de óculos para mergulho, daqueles de lente contínua. Os antebraços foram acomodados em dois canos cortados em seu diâmetro, os dedos repousaram numa superfície com textura semelhante à de uma prótese de silicone. Procurou relaxar e se concentrar após vinte segundos de advertising.

O equipamento, ao entrar em contato com as têmporas do cliente através do orifício visual, emitia impulsos elétricos específicos que seriam traduzidos pelo cérebro do jogador. Nas mãos, a mesma coisa, mas ali se priorizavam os impulsos mecânicos, de sensação física relacionada ao contato. Não havia cheiro nenhum, mas Victoria tinha certeza que sentia um aroma de tutti-frutti, daquele mesmo que acompanha fumaça de clube. Esse era o sinal de que tudo estava OK e agora era só se permitir aproveitar.

A viagem era curta, um piscar de olhos traduzido num choque de luz disfarçada pela iluminação ambiente. Já cadastrada no Laser, Victoria possuía um perfil e um avatar personalizado para usar tanto na simulação BatCave 3.0 quanto em qualquer outra. Não mais de cabelos pretos, mas violetas e raspados até formar um moicano caído à direita, tinha as íris vermelhas e cinco piercings distribuídos pela cartilagem da orelha esquerda.

Dentro de um macacão de vinil preto, sentia-se pouco acostumada mas bastante segura. A cintura afinada artificialmente por um corpete de couro tingido de roxo se remexia numa dança peçonhenta. Agarrada a um pilar de metal espelhado, descreveu o círculo que sustentava a decoração próxima ao palco. Achava que aquele objeto lhe permitia sustentar uma performance de stripper, ainda que suas vestes fossem custar meia hora para serem retiradas. Mas gostava de riscar o chão espelhado com a ponta dos saltos finos e adorava os olhares curiosos alimentados pelo tesão mal disfarçado. Ria, com seus lábios pretos.

BatCave era um simulador de clube noturno, mas possuía uma extensão que podia levar os jogadores para fora do estabelecimento. A parte externa era pequena, limitava-se a uma rua em que os términos se ligavam e formavam um círculo vicioso. Dali o jogador podia escolher algumas portas que transferiam o crédito de uma máquina para a outra, desde que disponível. Só assim o cliente poderia escolher uma nova simulação. Então, não era surpreendente que uma mão surgisse, do nada, e lhe puxasse para fora do clube. Quando Victoria percebeu seu braço agarrado por dedos nus, mal teve tempo de checar a face do estrangeiro, só o descobriu pelas costas.

De cabelos curtos e boa estatura, o homem mantinha ombros demasiadamente largos e demarcados de acordo com a cintura fina demais. Parecia uma figura humana distorcida no Photoshop, desproporcionalmente repuxada na vertical. Sua pele era amarela, de um tom forte e certo, sem presumir algum tipo de doença conhecida no mundo real. O antebraço descoberto pela camisa branca de manga arregaçada não possuía pêlos e a textura era viscosa, quase dando impressão de umidade por conta da temperatura baixa que mantinha. Achou nojento, mas os braços cobertos por luvas de látex impediram maior contato e troca de calor.

_Oi? – sua voz modificada era rouca e mais grave que a verdadeira, fina e pouco adulta.

Sem ter resposta, imaginou que o homem fosse algum tipo de tarado e tratou de se livrar do braço dele. Por alguns bônus acumulados ao longo dos meses de jogo, Victoria havia comprado pontos de força. O estranho amarelado voltou-se para ela, assustando-a ao se mostrar desprovido de face. Seu rosto parecia coberto por um saco de batatas, como se ele fosse um personagem dos quadros de Magritte, apesar da cobertura ter a mesma textura de sua pele. Finalmente, Victoria percebeu que não haveria conversa entre os dois e que seu asco pelo outro havia aumentado, assim como o medo.

Resolveu se deixar levar, permitindo que ultrapassassem a porta giratória que dava entrada ao clube. Depois de muito tempo sem o fazer, ela pisava na calçada de cimento poroso. A rua estava iluminada em tons róseos, como se fosse fim de tarde ou começo de manhã. Um carro estava estacionado próximo a um hidrante adornado por holopropaganda de shampoo para cabelos descoloridos.

_Como assim um carro, aqui? – perguntou, sem cuidar que não haveria resposta senão uma porta aberta e um empurrão para dentro do veículo. “Como um veículo estaria programado para funcionar numa rua literalmente sem saída?”, pensou.

No volante, sentou-se o mesmo homem sem face. A viagem parecia dar no que deveria dar: rua contínua, loop de cenário. Entretanto, o carro cruzou a esquina e continuou seguindo por uma estrada bem construída, com todos os acabamentos bem feitos e programados. Colada à janela do banco de trás, passou a socar o vidro, tentando quebrá-lo. O homem sem face aumentou a velocidade do carro, alcançando mais de 120km/h.

_Puta que pariu. – se ela pulasse, perderia o avatar.

As regras eram as mesmas do mundo real, a única diferença é que com fidelidade ou com créditos você conseguia pagar por mais força, velocidade, itens cosméticos e objetos de posse. Isso, no entanto, não significava imortalidade ou menor probabilidade de morrer numa tentativa tola de fugir. Ela acessou o controle pessoal e percebeu que faltavam alguns minutos para seu turno acabar.

_Foi mal, esquisito, mas já vou indo, hein. Fui. – no canto de seu olho, um cronômetro luminoso informava menos de um segundo para o fim do jogo. Ela abriu a porta do carro, pretendendo se jogar no instante em que o turno finalizasse. Acontece que o relógio cravou no 00:00:00 e a porta do veículo não se abriu quando ela chutou – o movimento foi impedido pela resistência do ar. Victoria encolheu-se quando o motorista acertou o retrovisor, “olhando-a” lá atrás.


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