Black Krieg – parte 4
Publicação: 29 de maio de 2010
A mão dele continuava segurando o retrovisor. Mesmo sem semblante, o olhar direcionado à passageira era perceptível. Era isso que mais a assustava, fazia-a procurar com as unhas um lugar para fincá-las e se forçar em estabilidade.
_Que merda tá acontecendo aqui? Me deixa sair, caralho! – Victoria berrava, conseguindo sentir que seu corpo exterior transpirava de nervosismo.
O motorista desatento à estrada meneou a cabeça negativamente. Os olhos vermelhos do avatar se abriram em espanto. Acessando sua conta, Victoria trouxe do inventário uma pistola eletrônica que havia ganhado numa competição. Com a arma “conjurada” na mão virtual, colocou o cano direto na têmpora do motorista.
_Ou você pára ou você… pára. – o dedo indicador pressionava o gatilho. As pernas da jogadora fraquejavam fora do ambiente simulado.
Ela era capaz de fazer log off e sair do jogo de uma vez: aquilo era só um jogo e não uma sessão de tortura. Mas não conseguia. A curiosidade contaminava Victoria pela ponta dos dedos e se consolidava na mente agitada. Que espécie de pessoa personalizaria seu avatar de maneira tão grotesca como aquele homem sem rosto? Cada joelho cutucava a parte de trás dos bancos frontais do automóvel. O motorista voltava a atenção para o caminho, mas mostrava ciência da arma em sua cabeça.
_Eu to avisando.
A criatura, que mantinha o carro em alta velocidade, não foi capaz de notar uma perturbação no retilíneo asfalto. Quando a reconheceu, em meio a um padrão predominantemente programado como constante e liso, não dava mais tempo. Com o pé e a mão, o motorista tentou conter o automóvel – pelo pedal e pelo freio manual. A traseira do carro ascendeu ao céu, fazendo o veículo girar no ar antes de finalmente dar uma cambalhota final.
Com o impacto, Victoria se descuidou do manuseio da arma e deixou que um tiro transformasse a cabeça da criatura em fagulhas coloridas, ainda que se desfizessem em um tom acinzentado – algo parecido a uma tela de LCD quando pressionada. Não deu nem tempo de contemplar a deformação do avatar que, enfim, mostrou-se autônomo: um robô. O avatar de Victoria acompanhou os movimentos do carro e, inclusive, emulou possíveis sensações de dor, ainda que reduzidas, para que a jogadora a sentisse.
Aqueles impulsos induziram Victoria a se afastar da máquina e finalmente se enxergar no reflexo côncavo de um capacete de realidade virtual, usado por um garoto ali perto. Sua imagem revelou que os cabelos aderiram à face, garantidos pela transpiração esfriada por conta do ar condicionado. Um suspiro cansado e preenchido de insatisfação foi soprado pelos lábios ressecados de sede. Ajeitou a alça da camiseta e resolveu sair dali.
Como feras, dois homens ajustados em ternos pretos faziam jus à profissão de segurança. Inevitavelmente, as figuras altas e robustas atingiam sua visão periférica e forçavam Victoria a olhar para conferir os dois homens de cabelo muito curto e óculos de lente contínua, espelhada. Ambos aterrorizantemente idênticos. Os coturnos pareciam provocar mais eco do que deveriam. Seus passos estavam apertados, preenchidos de pressa; tentava correr, mas não permitia a si mesma o desespero.
Subida a escadaria, deu de cara com a porta frontal da Galeria do Rock. Alguns homem-sanduíche caminhavam de lá para cá, com suas placas indumentárias preenchidas por arte concretista que se tornaria, de repente, um dragão, quando filmada por algum celular. Levou a mão à nuca, debaixo dos cabelos úmidos de transpiração. Deu meia-volta e partiu em direção ao bebedouro público. Apertou o botão lateral para que a água com gosto de cloro invadisse sua boca e enganasse seu calor e sede.
_Se eu fosse você, não deixava passar uma oportunidade dessas. Não assim, do jeito que ‘tá fazendo.
Viu que ao lado do bebedouro, encostava-se na parede uma garota pouco mais velha que ela. Os cabelos verdes cortados à altura dos ombros eram lisos, mas rebeldes – os fios estavam elétricos, sobre a cabeça. A camisa feita de meia arrastão cobria-lhe os braços e parte da barriga exposta. A peça não se tornava única porque a estranha havia aderido a um top de alças grossas e cumprimento que se seguia pouco abaixo dos seios. Não reparou nas calças.
_Que foi? – Victoria deixou de acionar o botão da água para se levantar, apoiando a mão na parede azulejada, à frente de si.
_O chip. Aquele que você deixou na Laser. – os olhos de Victoria tremeram em surpresa, mas se contraíram em desaforo – Você não leva mesmo a sério.
Tendo tirado do bolso de trás da calça de vinil um chip idêntico ao que se referia, manteve-o entre os dedos indicador e médio, chacoalhando de vez em quando, brincando com a luminescência provocada por sua superfície. Victoria levantou a mão, achando que a peça era oferecida para si. Quando seus dedos pensaram sentir a textura do chip, a estranha o guardou.
_Não. – ela tinha as mãos cobertas por luvas pretas de couro artificial – Seu avatar foi destruído.
_Como assim? Como você sabe? – Victoria passou a berrar, não medindo suas reações.
Do andar de cima, dependurada na grade alaranjada, dona Helena sacudia a gordura dos braços ao acenar e chamar, aos gritos, a funcionária:
_Tenha a santa paciência, Victoria! Você não presta mesmo pra trabalhar. Suba aqui agora. Venha já para aqui. – deu as costas para a outra, partindo em direção à loja – Esses moleques de hoje em dia só pensam em baderna. – resmungava para si.
_Peraí, dona Helena! – gritou pouco depois da mulher lhe deixar para trás – Cacete. Gorda mal comida. – murmurou, olhando para a risonha estranha de cabelos verdes – Do que você tá rindo, ô, sua puta? Sai da minha frente. – empurrou-a de propósito, visto que havia espaço suficiente para que ela pudesse desviar da garota.
Foi em direção às escadas rolantes, adiantando alguns passos antes de olhar para trás. A desconhecida havia posto frente à face um pano de seda amarela, o qual lhe distorcia a feição. Assustada com a reação da outra, não teve tempo para reconhecer aquilo. Quando os dois últimos degraus se desfizeram, Victoria sentiu seu corpo colidir com a esférica barriga de Helena.
A mulher a tomou pelo antebraço com suas mãos inchadas e queimadas por gordura. Levou-a de volta para a loja e trancou a porta de vidro repleta de pôsteres de bandas. Empurrou-a para trás do balcão, forçando-lhe com o olhar para que se sentasse no banco e prestasse atenção em si. A mesma mão de Helena golpeou o vidro bambo da superfície do balcão.
_Já cansei de chamar a sua atenção, menininha. Igual a você, essa merda de lugar tá cheio. Qual é a sua, hein, filhinha? Você acha que eu sou otária pra pagar uma vagabunda feito você?
Os olhos de Victoria cresciam e avermelhavam-se com o cansaço acumulado e a recém experiência em domínio virtual. Os ombros encolhidos mostravam-se frágeis enquanto a silhueta prostrava-se para frente como um arame farpado incompleto. O cabelo impedia que sua face de desânimo e confusão transparecessem para a vista de dona Helena.
_Olha para mim quando eu falo com você… – ela começava a frase com a voz ainda escondida na garganta, depois a cuspia de forma rouca e grave. Victoria hesitava em encará-la – Não brinca comigo que eu não sou mulher de brincadeira, hein. Eu to te avisando. – quando a outra acreditava que Helena ia se calar, ela deu um último grito – Olha aqui pra mim!!
O salto assustado impulsionou para cima o queixo de Victoria. Finalmente via a face de dona Helena, distorcida pelo ódio. A partir dali, seus ouvidos começaram a ressoar um apito constante e agudo, crescente em volume. Pelas frestas dos pôsteres colados na porta, enxergou olhos verdes a espiar a cena. O tempo, a partir dali, passava mais devagar.
A entrada de vidro se desfez com um chute de coturno. Os estilhaços foram cuspidos para a frente e espalhados pelo chão. Dona Helena, boquiaberta, voltou-se para a porta, erguendo os braços pesados com uma dificuldade reforçada apenas pelo efeito de câmera lenta. Aqueles olhos verdes, insanos, estavam famintos por diversão e satisfeitos por adrenalina. As duas mechas azuis da franja colavam-se nas têmporas suadas, pulsantes, de veias ressaltadas.
Na mão dele, uma adaga de lâmina roxa e adereços azuis. No teto, as hélices do ventilador falhavam e se remexiam, fazendo a luz tremer. Piscadelas na lâmpada fizeram a cena contínua se transformar em uma transição de fotografias. O grosso e curto pescoço de Dona Helena foi esticado pela mão preta de luvas de látex. A adaga chegou retilínea e ágil, desferindo o corte com uma destreza digna de trilha sonora. O feixe de sangue crescia e atingia as roupas dependuradas em cabides. Victoria assistia àquela cena como se vestisse aparelhos de simulação.
O som e a velocidade só voltaram ao normal quando ele, o cliente que havia lhe visitado pouco antes de sair da loja, estendeu-lhe a mão.
_Venha. – os dedos dele estavam nus; as luvas estavam no chão.
Saindo dali, Victoria quis conferir, por cima dos ombros, a face repuxada de Dona Helena e o grosso líquido escuro tomando tons rubros ao se espalhar pelo chão. Os olhos dela ainda se moviam, tremendo, a pupila contraída. Dona Helena era grotesca.
_O que você tá fazendo?? Você tá maluco? Você matou uma pessoa!
_Ah, só uma, é? – os dentes amarelos dele sorriam loucos e passionais.
_Eu to fudida. Eu to fudida e você tá me fudendo mais ainda de tá me envolvendo nessa história. – Victoria passava os cabelos da frente para trás das orelhas, enquanto eles desciam os degraus da escada rolante.
_Mas num é o que você queria? Você num queria fuder agora há pouco? – a voz dele um pouco fina; parecia ter perdido a capacidade de engrossá-la antes mesmo de sair da adolescência.
_Vai tomar no cu, valeu?
Já fora da Galeria, ouviam a música de quatro negros a animar uma roda de capoeira. Passaram pelo meio de dois caras de roupas largas a distribuir folhetos de Tattoo Shops. Tomaram cuidado para não escorregar quando, sem querer, pisaram numa poça de chuva e de vômito fresco. Com a mesma adaga ensangüentada, ele cortou a faixa preta e amarela que os impedia de tomar o caminho escolhido. Assim, chegavam mais rápido ao Viaduto do Chá, por onde passaram antes de se esconder em um dos vãos entre prédios. Lá, mais três pessoas os aguardavam. As duas garotas de moicano roxo e pink estavam ali, junto da estranha de cabelo verde.
_Até que enfim, hein, Engel?
_Nem enche, Viper. – o garoto, supostamente apelidado de Engel, respondia a desconhecida de cabelos roxos.
_Que que tá acontecendo? – Victoria olhou para os três, começando por Engel – Vocês têm idéia do que esse imbecil acabou de fazer?
_Se ela tá falando assim, é porque o Engel fez direito. – a figura de moicano pink se remexia, tirando do bolso da calça de oncinha uma lixa de unha. Victoria pensou que seria uma arma.
_É, eu fiz direito, Maggie. – jogou a adaga nos pés da outra, que soprava os dedos da mão. Ele se sentou sobre um caixote de madeira. Apoiou os braços cruzados sobre os joelhos, onde se debruçou. Parecia estar cansado e com ânsia.
_Tá, então vocês queriam matar a velha e? O que eu tenho a ver com isso? – Victoria ainda não conseguia sair do lugar, nem mexer os braços esticados.
_Quem disse isso? A gente queria matar tempo e a velha tava atrapalhando tudo. – a última, de cabelos verdes, se manifestou. Enrolava o pano amarelo em torno da mão – Você ainda não entendeu? Porra, Engel. E você ainda disse que essa aí era esperta. – começou a rir.
_Não enche… Não enche… – o primeiro foi mais baixo, o segundo quase se tornou um berro da única voz masculina ali.
_Como assim? – Victoria perguntou pouco antes da garota de cabelos verdes pôr frente ao rosto, novamente, o pano amarelo. Puxado para trás e pressionado contra a face, ele se equivalia ao semblante irreconhecível do motorista em BatCave. Victoria se calou por uns instantes, não conseguindo piscar nem fechar a boca.
_Pois é. Como eu ia saber do acidente em BatCave se eu não fosse você? – ela tirou o pano do rosto e começou a se aproximar de Victoria. O pano ascendeu, atingindo o pescoço da outra. Como um cachecol, ela ajeitava o tecido com aparência nobre – Você sabe quem somos. Você sabe que nos procurou. Você só não sabia que nós somos caçadores de IP e que seu registro ficou com a gente.
Victoria ergueu os olhos, enxergando uma passarela que conectava os dois prédios vizinhos. Havia muito musgo ali.
Tweets that mention Black Krieg – parte 4 | Count0Write1 -- Topsy.com disse: 29 de maio de 2010
[...] This post was mentioned on Twitter by Lidia Zuin, Asathui. Asathui said: RT @lidiazuin: Black Krieg parte 4 http://bit.ly/anw4T6 + @aoLimiar http://bit.ly/9fqi9q #aolimiar [...]
“O_O”…… muito bom!!!
Pretende continuar?
sim, sim XD