Black Krieg
Publicação: 24 de março de 2010
As formas rudes do caminhão de lixo eram amenizadas por feixes luminosos de neon verde. A carapaça de ferro escuro enferrujou com as chuvas e a tinta está lascada. Na traseira, dependuram-se um homem e duas mulheres; dois deles estão de macacão plástico verde luminescente com faixas prateadas que reluzem ao contato da luz. A restante pega carona, segurando-se numa das alças acima de um par de faróis brancos.
_Vou nessa. Valeu pela carona. – ela acena com as sobrancelhas e salta do veículo lento e pesado demais.
_Te vejo mais tarde, hein? – responde a coletora de cabelos escondidos pelo boné.
A jaqueta de couro é curta, desce poucos dedos abaixo da cintura. Remexe-se conforme ela balança os ombros ao ritmo dos passos. Puxou do bolso da calça de sarja preta os fones de ouvido já conectados ao smartphone. Balbuciava a canção que estourava os tímpanos, num volume não recomendável à audição. Cruzou a esquina e caminhou por mais uns dez minutos até alcançar o grande prédio universitário. Alguns matavam aula fumando, sentados no canteiro sem flores.
Sem ter quem cumprimentar – e sem vontade de o fazer –, partiu para os elevadores. Eram panorâmicos, aqueles malditos: bem incitavam a desistência dos alunos. Mas ela alcançou o décimo terceiro andar, reservado à graduação em Interpretação de Tendências. Era o menos disputado no vestibular e também parecia, de certa forma, muito tranqüilo de se cursar. A verdade é que as aulas eram um marasmo contínuo, um blábláblá descomprometido com a vontade daqueles que preenchiam as carteiras de alumínio e plástico transparente (aboliram a superfície opaca por causa dos graffitis).
Não tinha ninguém sentando na frente. Fez bem em voltar a cadeira para si e fazer do assento um apoio para os pés apertados por coturnos novos. Podia sentir e prever a pele dos tornozelos amolecida pela transpiração e fricção. As meias estariam salpicadas de sangue. Coçou o nariz ruidosamente, fazendo um garoto de cabelos compridos e maquiagem rosa se voltar raivosamente para ela. Montou nos lábios um murmúrio de repreensão, ele a recobriu de desdém.
A cabeça estava tão pesada que precisou se unir à carteira vazia. Enquanto os demais portavam seus netbooks e iPads, ela não trazia nada senão o smartphone com pouca bateria, uma cigarreira, um isqueiro e uns trocadinhos da noite passada. De domingo para segunda, reunia-se no centro com uns amigos e conhecidos, companhias terceirizadas. Faziam maratona, transferindo-se de uma matinê dominical para um boteco qualquer. Enquanto se ajeitava e procurava atender as pálpebras sonolentas, recordava-se de algumas pérolas trocadas durante o ápice da bebedeira. Riu sozinha e finalmente cochilou.
Só acordou quando o smartphone vibrou no bolso da calça. Mensagem promocional da operadora. Essas merdas sempre atormentavam, mas também oferecem vantagens, por exemplo, uma mp3 de brinde. Quem vê pensa que é preciso comprar música ou participar de promoções para poder ouvir alguma coisa… Seus lábios tremeram num gesto de desprezo e graça diante do anúncio eufórico. Acabava de receber um link para baixar o novo álbum de Patrick Starglitter, um astro teen patrocinado pela sempre ascendente Disney.
Levantou-se da carteira, pondo o aparelho de volta ao seu lugar. Saiu da sala em meio à reprodução de um vídeo e foi para o banheiro fumar. O vaso sem tampa não proporcionava muito conforto, mas com a bunda apoiada no bico da privada, até que dava para agüentar. Os joelhos unidos fingiam apoiar e os calcanhares levantados reforçavam o mesmo. O queixo erguido direcionava a fumaça para cima, ao mesmo lugar para onde ela olhava. O teto estava cheio de papel higiênico grudado e uns stickers que brilham no escuro. Um deles anunciava o site do time de holovôlei universitário e um outro que ainda não tinha visto: era recente, sugeria um blog de nome esquisito.
Dependurado o cigarro entre os lábios ressecados, usou o smartphone e a wireless local para acessar o tal endereço www.blackrieg.blog.br. O layout escuro e preenchido pela velha história da propaganda ao estilo Segunda Guerra Mundial anunciava um bando de baboseira despejada em posts enormes. Com o polegar, deslizava a tela procurando figuras ou vídeos, coisas mais fáceis e rápidas de se conferir. Uma janelinha do YouTube indicava “Diversão Black Krieg”. Meteu o dedo no play.
Sem precisar aguardar que os três minutos fossem carregados, já foi verificando uma filmagem trêmula, meio escura senão pela iluminação amarelada, provavelmente urbana. Era a Augusta, a baixa Augusta. Tinha uns carrinhos de lanche improvisados em peruas luminosas, uns caras jogados no chão cheio de flyers. O câmera narrava e instigava o espectador de que algo muito emocionante iria acontecer dali em diante.
Do chão ao horizonte, a lente capta três carecas de jaqueta verde militar, uma menina de moicano comprido e uma outra de cabeça raspada também – provavelmente tinha mechas compridas frente às orelhas e franja curta, acima das sobrancelhas. Confirmou o corte quando essa mesma pessoa voltou-se para a câmera e pediu para desligar “aquele caralho”. O câmera sacudiu seu dispositivo para os lados, indicando negação. Ela lhe devolveu o dedo do meio.
Chegando ao lugar prometido, os cinco filmados abriram espaço para a câmera focar um homem negro de dreads compridos. Acomodado numa grade de arame, o indigente dormia com os dedos cruzados e apoiados sobre a barriga pouco saliente. Escondia-se em roupas escuras e encardidas, umedecidas pela garoa recente. Um dos carecas cutucou o homem com a ponta metálica do coturno.
_Ei, cuzão. Cuzão.
O mendigo levanta as sobrancelhas grossas com pouca vontade, mal abre os olhos grudados por remelas. Os lábios estalam enquanto ele prova o gosto ruim da boca.
_Levanta, filha da puta. – outro careca, com um dragão tatuado na nuca, empurra a cabeça dele para o lado. O homem resmunga – Vai reclamar, viado?
_Viadinho. – reclama a garota de moicano, que revela portar um taco de baseball. O som de correntes ressoa meio baixo, mas logo se confirma conforme o terceiro careca ajeita um par delas nas duas mãos cobertas por luvas sem dedo.
_Você é a escória, seu filha da puta. Vagabundo. Se tá onde tá, é porque é vagabundo. – um primeiro golpe deixa o rosto do indigente avermelhado e abre um leve corte abaixo do olho.
Ele ergue as mãos, encolhe-se em sua insignificância e o círculo de agressores vai se fechando ao redor dele. O câmera tenta alcançar a cena em visão panorâmica, mas os chutes rápidos e seguidos vão dificultando o trabalho. Eles riem e repetem as mesmas ofensas, às vezes tentam justificar a agressão, mas não dá para ouvir muito bem. A espectadora do vídeo franze o cenho enquanto o cigarro queima tanto que as cinzas caem no chão, sem ela perceber.
Os instantes finais são reservados para a contemplação do indigente desacordado, do vômito ensangüentado, dos dentes misturados à pasta regurgitada. A menina do moicano passa os dedos pelo bastão e fricciona a ponta deles, mostrando ao espectador a cor rubra do líquido que tinge suas unhas roídas.
_Sangue de vagabundo, gente que merece se fuder. Enquanto você, seu imbecil, trabalha feito um filho da puta todos os dias, esses malditos fazem cara de dó para pedir esmola.
_Esmola é o caralho! É seu salário, seu bostão. – complementa a careca.
_É, idiota. É você que fica lá agüentando a porra das oito horas, a merda do escritório sem janelas, o viado do seu chefe e a miséria do salário. É você que paga imposto pra tá onde tá, que paga até pra poder viver. – a menina do moicano continua.
_Cidadãos tapados do cacete. – diz um dos carecas – Vivem essa vidinha de assalariado e ainda vão ter dó desses merdas? Eu to falando de você, classe média, não esses empresários viadinhos que dão o rabo para megacorporações!
_This is our democracy, it’s one for you and two for me!* – a menina de moicano canta rindo, dando cotoveladas na amiga.
_Black Krieg tá aqui para isso, para fuder com esses vagabundos. Leia nossa filosofia e saiba quem somos antes de criticar, seus merdas. – o careca das correntes anuncia, apontando para a câmera. O vídeo acaba.
Mordia o lábio inferior quando os vídeos relacionados deslizaram pela janela do YouTube. Sem saber bem o que pensar, ficou confusa entre concordar e decidir que aquilo era a própria prática da barbárie. O cigarro consumido pelo tempo foi deixado dentro do vaso antes de sair da cabine. Apoiou-se sobre a bancada de pias e pisou sobre o botão de acionamento da água. Preencheu as duas mãos unidas em concha e lavou o rosto cheio de maquiagem borrada.
Desceu os mesmos elevadores panorâmicos, tomando ciência da tempestade que caía lá fora. Sem guarda-chuva, já tinha noção de que ia chegar ensopada no trabalho e que ia levar um esporro daqueles. Mas precisava caminhar mais uns dez minutos até chegar à estação de metrô mais próxima da universidade. Os ônibus não eram uma boa alternativa diante do trânsito formado.
Sem pensar muito, fechou o zíper da jaqueta e encolheu os ombros, a cabeça abaixada e o rosto franzido pela chuva. Muita gente caminhava por lá, poucos eram tão ferrados quanto ela para não ter nem guarda-chuva, nem capa, nem dinheiro para gastar com isso. Enfim, desceu pela escada de cimento e passou o cartão pela catraca. Saldo insuficiente.
_Ô puta que me pariu. – relinchou, voltando para a entrada da estação, onde se formava uma fila diante de uma das máquinas de recarregamento.
Quando finalmente chegou sua vez, inseriu o cartão e digitou o número da conta bancária, os códigos de segurança e a senha. Pôs logo uns dez créditos – começo de mês sempre pressupõe esbanjamento. Outra fila a ser enfrentada, na catraca. Achava incrível como há alguns minutos aquelas porcarias estavam vazias e agora estavam acumulando gente umedecida de chuva e fedendo a borracha de galocha.
De braços cruzados e cabelos pingando, retorcia os lábios finos e suspirava de três em três segundos. Finalmente conseguiu passar pela catraca, pelo sorrisinho de canto do segurança e pelos degraus rolantes. O trem magnético chegou uns cinco minutos depois. Encostada num dos pilares da plataforma, não pretendia olhar muito para os lados para não achar nenhum engraçadinho que fizesse comentário ou direcionasse a atenção à ela. Tinha frio, mas não chegava a tremer. O ar condicionado se enfraquecia diante de tanta gente.
Quando se deslocou para entrar no transporte, teve seus passos cortados por um grupo que se encaminhava às escadas. Teve sorte de conseguir parar antes de ser atropelada por um grandalhão de têmporas raspadas. O homem a olhou de cima de seus quase dois metros de altura e resmungou qualquer frase repreensiva. O alarme do trem ressoou e as portas quase a prensaram. Voltou-se para a plataforma, quando o metrô já se punha em movimento: o homem ainda a encarava, acompanhado de mais três curiosos integrantes do grupo. Um deles tinha um dragão na nuca. O vapor quente de sua boca tingiu de branco o vidro das portas.
*Trecho da música Democracy, da banda FGFC820.