Charada
Publicação: 21 de dezembro de 2009
Se está cheio, muitas são as chances de encontrar alguém desagradável, degradante, decepcionante e débil. Se está vazio, você é desagradável, degradante, decepcionante, só que forte.
Fica desesperante o desejo de deixar o deserto. Todo o tempo o tique-taque tilintando contra os tímpanos. O relógio enlouquece, ensurdece e padece.
De compaixão,
de comunhão
com o nada
e o torpor.
Dorme e esquece. Sonha que é árvore e acorda de braços erguidos, cabelos desgrenhados, dentes caídos.
Numa caixinha guardam-se jóias, pedras preciosas, bilhetes secretos, cartas de amor ou bugigangas simbólicas.
O que é o que é um homem dentro de uma caixa?
Sacode, sacode, vê se ele reage. Um grunhido. Veio da boca ou do estômago? Tanto faz, tudo vem a ser a digestão. Ele tem fome. Passa a comida pelas frestas. Come e depois vomita porque não faz sentido deixar de sentir algo.
Se eu matá-la, mato também meu sentimento, que é a dor no estômago e o mal gosto na língua. Rançosa. Vomitando, volta o gosto ruim, esvazia o estômago e eu consigo dedilhar em minhas costelas como se eu fosse uma harpa. A mesma dos anjos, musas, deusas, entidades, faunos, minotauros!
Fez asas de cera – burro – e derreteu. Caiu. Se fodeu. Tá aí.
A resposta da charada.
O que é o que é? Um homem ou uma barata? Se fosse inseto, ao menos sobrevivia uma semana perdendo a cabeça. Eu perdi a minha faz mais de três anos e ainda não morri.