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	<description>Livro Virtual de Lidia Zuin</description>
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		<title>Triz</title>
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		<pubDate>Sat, 24 Jul 2010 01:54:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lidia Zuin</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Rola pra cá, pra lá. Ajusta um pouco mais pra direita, pra esquerda. Agora mais fundo, depois volta e sai. Volta mais um pouquinho. E sai. As digitais do dedão e do indicador roçam-se conforme a sujeira de nariz marrom esverdeada toma forma de bolinha. Com um peteleco, ela voa e desaparece na miopia do garoto de bochechas fartas e marcas faciais, como cicatrizes de catapora. Ele coça a axila direita, tentando endireitar a camiseta justa ao corpo perfeitamente esférico. Então sai andando, com suas perninhas miúdas e ligeiras.</p>
<p>Encostadas na cúpula de vidro que protege a fenda do metrô, duas rogues fumam cigarros eletrônicos com fumaça vermelha. Os espartilhos afinam suas cinturas e elevam seus seios decorados por tatuagens de coração flamejante, vestígios do verão passado, quando a banda japonesa Juno no Densetsu relançou a moda hipster – elas trocaram as cores vivas por manchas escuras. Seus cabelos pretos e compridos, muito lisos e mais brilhantes que peruca de plástico, mal se moviam com a ventania de uma tempestade próxima. O ar úmido e pesado decorava suas faces bem clareadas por pancake branco, fazendo com que o reboco se tornasse ainda mais disforme.</p>
<p>Das escadas rolantes, subiram três cosplayers de algum mangá indie lançado há pouco no DeviantArt. Em um dos shoppings daquela avenida, elas iriam competir o melhor visual e também assistir aos garotos numa partida de Pump. As vozes agudas tremulavam com risinhos agressivos, os olhos se contraíam e se esticavam de maneira medonha conforme o formato europeu se tornou asiático cirurgicamente – as íris, elas escolheram manter azuis e verdes. As rogues rangeram os dentes, erguendo suas mãos cheias de unhas postiças afiadas. O trio de garotinhas entrelaçou seus dedos no horror de serem pegas por aqueles seres demoníacos embebidos de fumaça vermelha. Correram sobre a faixa de pedestres pouco após o semáforo ter reluzido em verde. Uma delas virou enfeite de capô, daqueles bem cheios de lacinhos de cetim e babados.</p>
<p>Na rua paralela, uma dupla de asiáticas saía do McDonald’s, segurando dois copos de 500ml de milkshake de algo que poderia parecer chocolate com biscoito. Numa mão a bebida, na outra o celular gigante e com o dobro do peso, meta atingida a partir de uma vasta coleção de chaveiros com miniaturas de idoru, kawaii stuff e deformidades que brilhavam nas cores do arco-íris conforme a campainha do aparelho reagia. Por Bluetooth, as duas trocavam fotos da noite anterior, quando foram numa balada nikkei procurar um namorado ou um ser reprodutor que pudesse perpetuar o gene nipônico.</p>
<p>Lynx acabava de se livrar das telhas de vidro escuro , dos neons, das grandes vitrines de LCD e das modelos em holograma do boulevard. Os cabelos anis se enroscaram na boca escancarada, nos lábios rachados pela sede, péssimos cuidados e pelo efeito colateral do substituto de anfetamina. Os dedos entortados pelas consecutivas estaladas ajeitaram, trêmulos, os fios ásperos atrás da orelha esquerda adornada por brincos de argola preta e por um soquete não coberto por uma capa cor-e-textura de pele.</p>
<p>A saliva foi engolida com dificuldade, como se fosse sólida e grande tal qual as pedras brancas que preenchiam um vaso de flores artificiais com miolo de fibra ótica iluminada. Foi chegando perto da sarjeta quando o semáforo piscou em vermelho – quarenta segundos permitidos à travessia de pedestres. O trânsito de começo de noite permitia que as ruas fossem salpicadas por carros alinhados. Lynx gastou metade do tempo alcançando o asfalto, pelo qual preferiu caminhar entre os veículos, recortando-os na pela horizontal enquanto o sobretudo de borracha preta se enroscava nos pára-choques menos compactos. Mesmo assim, não teve ânimo de resmungar ou de desferir um golpe contra a lataria cara daqueles citizens.</p>
<p>Tendo cumprido a travessia, as luzes amarelas e vermelhas a agiram tal qual os media dizem por aí na TV: sentia ainda mais fome e sede. Sem chip de crédito nem uma boa desculpa para mendigar, foi surpreendida por dois milkshakes segurados por manequins ambulantes vestidos de Burando. De repente, a língua arroxeada por balinhas de frutas silvestres diet transbordou em saliva amarga e grudenta. Como uma velha sem dentes, ela estalou os lábios e sentiu fios de baba se formarem nas extremidades. Suas mãos cheias de veias salientes se esfregaram no ânimo e na concentração com que as botas de cano alto tilintaram pela calçada de cimento, em passos rápidos e convictos. Os dedos bem esticados permitiram a palma magra de depositar velocidade e impacto na nuca nua da chinesinha que prendera o cabelo castanho com um laço.</p>
<p>O berro e o rosto voltado para trás foram o tiro de uma arma na largada de um campeonato. O bote foi dado pela esquerda, quando o casaco preto elevou-se feito uma capa de vampiro prestes a engolir a vítima, então trêmula sobre as sandálias de plataforma com 20 centímetros de altura. O copo plástico se amassou nas mãos e o líquido grosso quase transbordou pela borda do recipiente, senão pela tampa plástica em forma de Ronald McDonald. A acompanhante estava pronta para sacar da bolsa um aparelho de choque, quando, no entanto, a amiga berrou em mandarim e a levou consigo para o chão decorado por pontinhos coloridos de chiclete recém cuspido. Feito Robin Hood, Lynx correu até o quarteirão seguinte com a riqueza dos nobres em seu poder – só seu.</p>
<p>Em frente à lavanderia 24 horas, dois ghetto boys se animavam ao lado de uma boombox prateada com enfeites luminosos em amarelo. O esquimó curtia sua nova munhequeira de tecido branco, em que fora bordada a inicial de seu nome: “S”. O negro de cabeça raspada deliciava-se com seu palito de dente feito de aço.</p>
<p><em>“I wanna fuck you like a dog, Bit-Bitch, Bit-Bitch. I’ll have you I swear to God, Bit-Bitch, Bit-Bitch.”</em></p>
<p>Já cessada sua fuga, a junkie finalmente pôde experimentar a gosma branca e marrom que gelava seus dedos e secava sua garganta. O canudo grosso permitiu que os flocos de biscoito invadissem sua boca num delicioso momento que se repercutiria em uma imagem mental do slogan do McDonald’s, caso Lynx tivesse nascido naquele ano, em que fora aprovada a lei número alguma coisa: todo os cidadãos do país, assim que nascidos (paridos ou projetados), receberiam no cérebro um chip publicitário. Magdalena, sua amiga iraniana dona de um canal de moda para anoréxicas, pagou 1000 créditos para conseguir um igual. Em sua mensagem offline, ela confessava: “queria ter nascido hoje!”</p>
<p>Mas ela continuava sua caminhada preenchida de publicidade apenas nos outdoors, balões e zepelins. A música dos ghetto boys chamou sua atenção, assim como os break dancers que ali demonstravam suas habilidades junto de algumas meninas do parkour, que escalavam os postes de vigilância, em vez de prédios. Foram colados na lente das câmeras stickers com uma caricatura do Obama, presidente dos Estados Unidos na primeira década do século XXI. “Vigilate, we can”, berrou a menina, durante um salto de 3 metros até o chão. Lynx franziu o cenho, estranhando a capacidade da outra, visto que seus membros eram orgânicos, pelo jeito.</p>
<p>Atraída por aquela reunião, a junkie se arrastou pelos vitrais da lavanderia, delineando as unhas pretas pela superfície transparente do estabelecimento. O tamborilar não surtia efeito sonoro: a música preenchia um terço daquela avenida. E isso era incômodo, a ponto de uma caminhonete ali passando disparar contra a calçada um molotov mal feito, porque sequer conseguiu explodir. Lynx riu disso e então, sentou-se próxima ao esquimó que ainda admirava sua munhequeira de tecido branco.</p>
<p>_E aí. – ela começou.</p>
<p>As reticências do esquimó não surtiram muito efeito no rosto dela, que escondia suas bochechas para dentro da boca, enquanto sugava o milkshake. O barulho rouco incomodava a testa bronzeada do esquimó. Seus ombros contraíram assim como sua coluna, ambos incomodados com a presença da estranha. Lynx afastou o copo, voltando-se uma nova vez para o garoto, agora com os dedos indicador e médio sobre os lábios. Então, subitamente, ele reagiu com um misto de simpatia e indiferença. Enfiou a mão dentro do abrigo esportivo, pegando do bolso interno o que ela supôs ser um maço de cigarros. No entanto, os ouvidos ensurdecidos pela música taparam-se num ruído agudo e contínuo até se desfazer numa surdez pós bomba. Sua face acinzentada acobreou-se com a luz vermelha da arma eletrônica que tinha o cano terminado em sua testa.</p>
<p>_Huh. – ela engasgou, a mão ainda na boca, convulsionando.</p>
<p>_Não me leva a mal, dona, mas você é a vadia mais folgada de toda a cidade, tá sabendo? – ele movia a cabeça de um lado para o outro, o sotaque forçado caricaturando o idioma.</p>
<p>Ela jogou o copo de milkshake no chão, onde se espalhara o restinho que ela não conseguiu terminar. Então, juntando as mãos, ela sinalizou como se estivesse orando, implorando por sua vida, “pelo amor de deus”. A fisionomia deturpou-se de tal maneira que a face de vagabunda decaiu à classificação de pobre coitada, moribunda, alma perdida. A cruz de análogo de madeira envernizada com uma miniatura de Cristo crucificado reluziu, no pescoço do esquimó, conforme o trânsito voltou a fluir.</p>
<p>_Dona, se você fosse crente, você num usava o nome d’Ele em vão, tá sabendo? Isso é pecado e pecador tem que morrer. – o gatilho fazia cócegas no dedo do esquimó.</p>
<p>As meninas do parkour se aproximaram rapidamente, uma delas parecendo muito séria, inconformada.</p>
<p>_Que é que tá pegando, Sakari? Quem é essa aí? Que é que ela quer, hein?</p>
<p>_Ela tá querendo tirar é com a minha cara, tá sabendo? Vou fazer essa vagabunda virar queijo suíço, falou? – ele respondeu.</p>
<p>_Se liga, Sakari. Ela só tava pedindo um cigarro, mano. – o homem negro ao lado finalmente se manifestou – Mas que é vadia, é. E se tu comesse ela em vez de matar? Ou vai matar e comer depois? – ele riu, os pulmões falhando um pouco, talvez porque havia terminado de puxar um baseado ainda aceso em sua mão.</p>
<p>_Vocês são uns puta “nojento” mesmo. Larga essa porra, caralho! – a garota do parkour meteu um chute na mão de Sakari, tornando-se ainda mais perigosa que o esquimó.</p>
<p>A pistola caiu assustada no chão, cuspindo uma bala que por pouco não atingiu o pé de Lynx, mas derrubou o pitbull que passeava com um fisioculturista.</p>
<p>_Você tá muito fudido. – riu Lynx, metendo a ponta do dedo indicador no nariz achatado do esquimó.</p>
<p>Ela se levantou, deixando um sorriso para sua salvadora, quem precisaria ter o mesmo ânimo para defender o amiguinho. Logo mais chegaria um saco de músculos e bomba que, no final das contas, nem devia ser tão forte assim. Agora só faltava arranjar o cigarro mesmo.</p>
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		<title>Uma visita ao Samplering</title>
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		<pubDate>Tue, 22 Jun 2010 13:36:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lidia Zuin</dc:creator>
				<category><![CDATA[horror]]></category>
		<category><![CDATA[cyberpunk]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p>Ainda em movimento, o carro deixou para trás, pouco antes de alcançar um  terço da faixa de pedestres, um fim de cigarro aceso. O cilindro  consumido ainda tinha as cinzas ardentes. Fagulhas de brasa  espalharam-se pelo vento, pelo asfalto, invadiu a calçada, perdeu-se  entre as pernas apressadas na descida. Estava sujo de batom vermelho,  estava marcado com as iniciais YSL. Do canto do canteiro, cantou os  sapatos de solas gastas o movimento do indigente calvo. Apressado, ele  descia ao chão como em louvor à Meca do resto de tabaco. Saliva por  saliva: mais ou menos rançosa, que mal faz?</p>
<p>Do outro lado da rua,  entre paredes amarelas, uma vidraça transparente delatava três garotas  de minissaia de borracha colorida, sentadas em três bancos pretos e  giratórios, altos como assentos de bar. Tomavam seus milkshakes com  aditivo de substituto de endorfina, tagarelavam uma com a outra,  pareciam grandes amigas de um distante passado consumido por horas  online: aquela era japonesa, a outra russa e esta era italiana. Todas  obrigatoriamente se entendiam por dominar a língua inglesa, mas a russa,  com sotaque muito carregado, usava um microsoft de língua antiquado.  Diziam elas que Yekaterina era da época da União Soviética, o que a  ofendia, mesmo que em seu HD portátil carregasse uma pasta preenchida de  foto-manipulações de Stalin, Lênin e Marx ao melhor estilo  pós-construtivista. Sabendo somente ela disso, experimentou reanimar o  led que se retorcia no canudo cheio de voltas. Estavam, coreografadas,  mais uma vez clicando os mouses transparentes e iluminados em verde,  rosa e amarelo: testavam diferentes jogos de beleza e cirurgia plástica.</p>
<p>Mais  adiante, após a porta de vidro eletrônica se abrir, havia estantes e  mais estantes de caixas de software dispostas como caixas de sabão em pó  em prateleiras de hipermercado. O salão da Samplering se estendia ao  infinito fundo falso de espelho pregado na parede. A meia-luz perturbada  por spotlights coloridos dava a impressão que a casa também reservava  um palco para a apresentação de bandas. No entanto, um possível DJ  ficava muito bem escondido num canto próximo à cantina decorada às  breguices de uma estranha década de 60 do século XIX. Tubos de barbeiro,  listrados de branco e vermelho, serpenteavam e brilhavam numa  alucinógena brincadeira com a fotografia de <em>A Fantástica Fábrica de Chocolate</em>. Os balconistas de  cara tingida de laranja por bronzeamento artificial sorriam brancos  dentes desgastados até ganhar simetria. Usavam gravatas borboleta  amarelas de bolinhas vermelhas e vendiam lanches pré-descongelados,  batatinhas e milkshakes com o dobro da quantidade de calorias  recomendável ao consumo diário.</p>
<p>Nesse ambiente, um <em>rockabilly boy</em> ajeitava seu topete  com um pente platinado. Cultuando sua imagem no reflexo de uma  frigideira dependurada na parede mais próxima ao lado de fora do bar,  ele se dedicava beijocas no ar e retocava o blush nas maçãs do rosto  usando um pincel cuspidor de tonalidade rosa. Atrás de si, a menina de  cabelo azul e ondulado ajeitava a gola de sua camisa por cima da jaqueta  de couro comprada num brechó reformador de antiguidades indumentárias.  Ao fim da vigésima ajeitada “no visu”, os dois repetiram um cumprimento  sincronizado de acordo com o reflexo de ambos, na mesma frigideira. O  Oompa-Loompa com crachá escrito “Sigmund”piscou para eles e lhes  devolveu um positivo dedo indicador.</p>
<p>Como as três prateleiras de  softwares ocupavam o centro do salão, os cantos eram preenchidos por  estofados de couro vermelho e miniaturas de <em>New Beetle</em> fingindo ser  poltrona para mesas ao estilo pin-up snake bar. Uma garçonete apertada  num corpete escondido abaixo do vestido de gola pólo resmungou um “pois  não” para duas <em>surgirls</em> que queimavam crack num tubo customizado  ilegalmente com figuras da Hello Kitty e seus amigos. As coreanas de  olhos muito esbugalhados e cabelos vermelhos pediram, num jogral,  batatas sorriso com cheddar e milkshake de morango com aditivo de  baunilha. Seus celulares cor de rosa e branco vibravam canções póstumas  de Ayumi Hamasaki em pink, roxo, azul, verde…</p>
<p>Sobre a vitrola  decorada por neon, apoiados estavam braços gordos e tatuados de um <em>biker</em> loiro e barbado. Ao jogar a  primeira das fichas compradas com cartão de crédito falsificado, um  holograma de vinis pairava sobre suas vistas. A voz rouca e eletrocutada  de uma inteligência artificial sugeria uma faixa de acordo com o  reconhecimento de ruídos no lugar. Como os risos estavam se sobrepondo  aos cliques de mouse, aos tilintares de copos e a eventuais acidentes  com talheres, pratos e netbooks, JunkieBox, a IA, sugeriu um remix  vintage de The Cure, por Bellatrix, da canção &#8220;Let’s Go to Bed&#8221;. O <em>biker</em> prostrou sua língua coberta  por uma camada de baba amanhecida, branco-amarelada. Procurou por  Motörhead quando a maldita máquina escolheu por si.</p>
<div style="text-align: center">“<em>Let me  take your hand, I&#8217;m shaking like milk. Turning, turning blue all over  the windows and the flowers…</em>”</p>
</div>
<p>Um chute de coturno  militar fez os neons da jukebox oscilarem, a voz aguda da cantora se  tornar um ruído grave e prolongado até finalmente retornar à elétrica  batida eletrônica digna das máquinas de Pump interditadas mais à frente.  Um nerd passou pelo <em>biker</em> meneando a cabeça em sinal de desaprovação.  Boquiaberto, o grandalhão se sentiu menosprezado pelo ruivo magrela que  já havia se afastado, muito mais interessado em seu game para PSP recém  adquirido.</p>
<p>Eis que da porta de vidro automática surgem  engravatados <em>megacorp</em> asiáticos.  Suas peles marrom-amareladas brilhando com o lançamento da Chanel  (creme hidratante <em>Shinning Glittering  Wonderful Man</em>). Suas maletas foram deixadas para o anfitrião,  vestido como um antigo empregado de hotel, fazendo honra aos  chapeuzinhos minúsculos e vermelho queimado que se equilibram na nuca,  com um cordão enlaçando a cabeça. Feito um macaquinho de desenho  animado, o desajeitado finlandês guardou os pertences dos já  reconhecidos Asahi.</p>
<p>Tinham alvo previsto: a mesa das coreanas.  Assim que uma delas, já chapada, percebeu o luminoso cabelo de um dos megacorp, pôs seu tubo entre as  pernas, abaixo da mesa coberta por toalha xadrez vermelha. A outra  repetiu o gesto quase ao mesmo tempo, senão pelo delay da droga. Elas deslizaram as nádegas semi  descobertas pelas minissaias plissadas, chegaram ao fim da poltrona,  tocando com os ombros nus a parede parcialmente coberta por uma chapa de  metal engordurada por óleo de hambúrguer. Dois megacorp para cada uma, três pessoas em cada assento.</p>
<p>_Não  sei, acho que vou vomitar. – encostada ao lado de um PC, uma <em>rogue</em> revisava no smartphone as fichas dos personagens de RPG mestrado por  ela, num fórum internacional.</p>
<p>_Fica misturando essas merdas no  milkshake pra ver no que dá. – respondeu o outro <em>rogue</em>, que checava seus  replies no Cheatter.</p>
<p>_É, eu to sabendo. – debaixo da mão esquerda  coberta por luvas de couro preto sem dedos, ela agora acendia um  cigarro com um maçarico em forma de Drácula. Seu cabelo cortado em  chanel assimétrico a atrapalhava.</p>
<p>A rogue tirou do USB seu  pendrive-pulseira e o pôs de volta ao pulso fino e escondido por um  sobretudo de veludo e fitas de cetim. Tinha terminado de copiar as  chaves de registro de um jogo ainda há pouco testado como demo no  computador em que o colega Blutzt agora checava quantas de suas  mensagens pseudo-filosóficas e over dramáticas haviam sido replicadas  pelos 3.000 seguidores.</p>
<p>Do balcão, saiu o casal <em>rockabilly</em>. Os  dois narcisos decidiram se acomodar numa das mesas, sentando um frente  ao outro, dedos entrelaçados, olhos sucumbidos por olhos. “Oh, <em>baby</em>,  como você é gata”. “Oh, gato, como você é um arraso”. Uma sessão de  frases prontas conduzidas por, finalmente, &#8220;I cum blood&#8221;.</p>
<div style="text-align: center"><em>“As I unburied her, I  cum blod from my erection. I feel it run down her throat, swallow”</em></div>
<p>Enquanto  o <em>biker</em> praticava <em>air guitar </em>ao som de Cannibal  Corpse, o nerd ruivo erguia seus olhos castanho claro por debaixo do aro  colorido e animado em led laranja. “Câncer”, ele murmurou pouco antes  de deixar o NeoMario ser atingido por um casco de tartaruga blindado  soltando laser. As três garotas de saia de borracha, já tendo deixado os  computadores da entrada, ouviram o barulho do impacto da cabeça do  moleque contra a vitrine de gadgets.</p>
<p>_<em>Cazzo</em>! – a napolitana  berrou com os lábios pink por detrás das unhas azuis.</p>
<p>Sobre a  mesa dos coreanos, repousavam pistolas elétricas semi-automáticas. Eram  profissionais, daqueles que portam munição e tatuagens nos braços:  dragões e samurais. Eram poderosos, daqueles que não verbalizam suas  palavras, mas transmitem suas vontades com olhares de canto, torcidas de  boca, batuque de dedos na mesa oca. As duas coreanas cessaram seus  celulares sincronizados em luz ritmada e passaram a jogar <em>SuperKawaii Snake</em>.</p>
<p>_Vai,  caralho… &#8211; a <em>rogue</em> girou o pulso esquerdo, olhando para o relógio de led  inserido em seu antebraço – Se a gente não for logo, vai ter que pagar  entrada. E você não tem dinheiro pra pagar entrada.</p>
<p>_Calma, minha  querida Erzsébet Bathory… &#8211; resmungou o <em>rogue</em> a digitar um novo  endereço, mais um perfil em alguma rede social dedicada aos rogues.</p>
<p>_Não  use o santo nome em vão! – berrou a<em> rogue</em>, jogando longe o cigarro,  demonstrando suas próteses já aparentes pela diferença entre o tom  amarelado de nicotina nos dentes verdadeiros e a brancura exagerada das  presas sintéticas. Mais como lobisomens, os adolescentes viciados em  <em>Vampiro, a Máscara</em>, rosnavam um para o outro.</p>
<p>E o cigarro rolou  chão branco à frente. Solas de borracha de tênis Nike esmagaram a ponta  de fumo antes que ela atingisse um copo de vodka derramado no chão.  Sorte aqui, novidade lá: um murro na mesa fez com que os tubos de crack  das coreanas fossem ao chão. O som de vidro partido engrossou o silêncio  fúnebre daquela mesa que antes eram risos e voz chata de j-pop. Um dos  megacorp desceu a cabeça para debaixo da mesa e descobriu o resíduo a se  espalhar por entre pedaços de cabeça de Hello Kitty partidas no piso.  Sua resposta foi um polegar levantado para o teto, voltando-se para o  chão.</p>
<p>_Jung  mal mi an hae!! Jung mal mi an hae!! – berravam as  duas, em um choro escancarado e tão mais rápido quanto o golpe certo de  um canivete suíço contra a garganta de uma. Não precisavam do barulho de  tiros, não é mesmo?</p>
<p>_Nal jug-iji ma &#8211; o mesmo movimento foi  repetido por outro <em>megacorp</em>, um que ainda se mantinha sem vestígio do  sangue que era cuspido pelo pescoço da coreana já desfalecida sobre a  toalha xadrez vermelha.</p>
<p>_Oh, baby, você me acende. – retribuía o  <em>rockabilly boy</em> enquanto os dois dividiam um combo milkshake de morango  com kiwi.</p>
<p>_Oh, gato, você é um broto. – sorria a mulher de  cabelos azuis. O ruído de fim de bebida grunhia entre as duas cabeças,  sobreposto pelos gritos agudos da coreana que convulsionava no chão.<br />
As  três garotas cessaram a marcha sobre saltos de botas de couro branco.  Olharam para a cena enquanto os quatro megacorp se levantavam, ajeitando  suas gravatas um após o outro, como se fossem réplicas. Pegaram suas  maletas e desceram os três degraus que separavam a Samplering da calçada  encardida do lado de fora.</p>
<p>_Please, could you help those girls? I  think they drank too much, you know? These asian bitches. – riu a  russa, sentindo um vigoroso cotovelo anoréxico lhe atingir nas costelas –  What’s the matter with you?!</p>
<p>Pelos cabelos, as três se resolviam  de alguma forma. Bastou um salto quebrar para que a primeira fosse ao  chão e um dos gritos fosse contido. Bastou uma mecha do aplique ter  saído para que a segunda ao espelho tivesse recorrido. Bastou um brinco  caído para que a terceira engatinhasse pelo piso em busca da bijuteria  trazida da Estônia.</p>
<p>O <em>biker</em>,  tendo reparado que logo a moça da higiene vinha de balde, charuto e  escovão para limpar a cena do crime, tratou de esfregar a esférica  barriga no chão umedecido em rubro.</p>
<p>_Oh, no, no! <em>I need a live woman to fill with my fluid. A  delicate girl to mutilate, fuck and kill</em>! – agora ele chorava  sobre um porta-retrato duplo retirado do bolso de trás da calça jeans.  Uma foto para cada coreana estirada feito boneca-manequim de vitrine.</p>
<p>O  rogue ainda estava muito interessado pelos novos pedidos de amizade num  site de relacionamentos com garotas tailandesas. Assim, Bathory-chan  resolveu dar o fora dali, tomando o nerd ruivo pelos cabelos.</p>
<p>_Ah  mãe, deixa só eu jogar mais um pouquinho…</p>
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		<title>Black Krieg &#8211; parte 4</title>
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		<pubDate>Sat, 29 May 2010 23:00:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lidia Zuin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A mão dele continuava segurando o retrovisor. Mesmo sem semblante, o olhar direcionado à passageira era perceptível. Era isso que mais a assustava, fazia-a procurar com as unhas um lugar para fincá-las e se forçar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A mão dele continuava segurando o retrovisor. Mesmo sem semblante, o olhar direcionado à passageira era perceptível. Era isso que mais a assustava, fazia-a procurar com as unhas um lugar para fincá-las e se forçar em estabilidade.</p>
<p>_Que merda tá acontecendo aqui? Me deixa sair, caralho! – Victoria berrava, conseguindo sentir que seu corpo exterior transpirava de nervosismo.</p>
<p>O motorista desatento à estrada meneou a cabeça negativamente. Os olhos vermelhos do avatar se abriram em espanto. Acessando sua conta, Victoria trouxe do inventário uma pistola eletrônica que havia ganhado numa competição. Com a arma “conjurada” na mão virtual, colocou o cano direto na têmpora do motorista.</p>
<p>_Ou você pára ou você… pára. – o dedo indicador pressionava o gatilho. As pernas da jogadora fraquejavam fora do ambiente simulado.</p>
<p>Ela era capaz de fazer log off e sair do jogo de uma vez: aquilo era só um jogo e não uma sessão de tortura. Mas não conseguia. A curiosidade contaminava Victoria pela ponta dos dedos e se consolidava na mente agitada. Que espécie de pessoa personalizaria seu avatar de maneira tão grotesca como aquele homem sem rosto? Cada joelho cutucava a parte de trás dos bancos frontais do automóvel. O motorista voltava a atenção para o caminho, mas mostrava ciência da arma em sua cabeça.</p>
<p>_Eu to avisando.</p>
<p>A criatura, que mantinha o carro em alta velocidade, não foi capaz de notar uma perturbação no retilíneo asfalto. Quando a reconheceu, em meio a um padrão predominantemente programado como constante e liso, não dava mais tempo. Com o pé e a mão, o motorista tentou conter o automóvel – pelo pedal e pelo freio manual. A traseira do carro ascendeu ao céu, fazendo o veículo girar no ar antes de finalmente dar uma cambalhota final.</p>
<p>Com o impacto, Victoria se descuidou do manuseio da arma e deixou que um tiro transformasse a cabeça da criatura em fagulhas coloridas, ainda que se desfizessem em um tom acinzentado – algo parecido a uma tela de LCD quando pressionada. Não deu nem tempo de contemplar a deformação do avatar que, enfim, mostrou-se autônomo: um robô. O avatar de Victoria acompanhou os movimentos do carro e, inclusive, emulou possíveis sensações de dor, ainda que reduzidas, para que a jogadora a sentisse.</p>
<p>Aqueles impulsos induziram Victoria a se afastar da máquina e finalmente se enxergar no reflexo côncavo de um capacete de realidade virtual, usado por um garoto ali perto. Sua imagem revelou que os cabelos aderiram à face, garantidos pela transpiração esfriada por conta do ar condicionado. Um suspiro cansado e preenchido de insatisfação foi soprado pelos lábios ressecados de sede. Ajeitou a alça da camiseta e resolveu sair dali.</p>
<p>Como feras, dois homens ajustados em ternos pretos faziam jus à profissão de segurança. Inevitavelmente, as figuras altas e robustas atingiam sua visão periférica e forçavam Victoria a olhar para conferir os dois homens de cabelo muito curto e óculos de lente contínua, espelhada. Ambos aterrorizantemente idênticos. Os coturnos pareciam provocar mais eco do que deveriam. Seus passos estavam apertados, preenchidos de pressa; tentava correr, mas não permitia a si mesma o desespero.</p>
<p>Subida a escadaria, deu de cara com a porta frontal da Galeria do Rock. Alguns homem-sanduíche caminhavam de lá para cá, com suas placas indumentárias preenchidas por arte concretista que se tornaria, de repente, um dragão, quando filmada por algum celular. Levou a mão à nuca, debaixo dos cabelos úmidos de transpiração. Deu meia-volta e partiu em direção ao bebedouro público. Apertou o botão lateral para que a água com gosto de cloro invadisse sua boca e enganasse seu calor e sede.</p>
<p>_Se eu fosse você, não deixava passar uma oportunidade dessas. Não assim, do jeito que ‘tá fazendo.</p>
<p>Viu que ao lado do bebedouro, encostava-se na parede uma garota pouco mais velha que ela. Os cabelos verdes cortados à altura dos ombros eram lisos, mas rebeldes – os fios estavam elétricos, sobre a cabeça. A camisa feita de meia arrastão cobria-lhe os braços e parte da barriga exposta. A peça não se tornava única porque a estranha havia aderido a um top de alças grossas e cumprimento que se seguia pouco abaixo dos seios. Não reparou nas calças.</p>
<p>_Que foi? – Victoria deixou de acionar o botão da água para se levantar, apoiando a mão na parede azulejada, à frente de si.</p>
<p>_O chip. Aquele que você deixou na Laser. – os olhos de Victoria tremeram em surpresa, mas se contraíram em desaforo – Você não leva mesmo a sério.</p>
<p>Tendo tirado do bolso de trás da calça de vinil um chip idêntico ao que se referia, manteve-o entre os dedos indicador e médio, chacoalhando de vez em quando, brincando com a luminescência provocada por sua superfície. Victoria levantou a mão, achando que a peça era oferecida para si. Quando seus dedos pensaram sentir a textura do chip, a estranha o guardou.</p>
<p>_Não. – ela tinha as mãos cobertas por luvas pretas de couro artificial – Seu avatar foi destruído.</p>
<p>_Como assim? Como você sabe? – Victoria passou a berrar, não medindo suas reações.</p>
<p>Do andar de cima, dependurada na grade alaranjada, dona Helena sacudia a gordura dos braços ao acenar e chamar, aos gritos, a funcionária:</p>
<p>_Tenha a santa paciência, Victoria! Você não presta mesmo pra trabalhar. Suba aqui agora. Venha já para aqui. – deu as costas para a outra, partindo em direção à loja – Esses moleques de hoje em dia só pensam em baderna. – resmungava para si.</p>
<p>_Peraí, dona Helena! – gritou pouco depois da mulher lhe deixar para trás – Cacete. Gorda mal comida. – murmurou, olhando para a risonha estranha de cabelos verdes – Do que você tá rindo, ô, sua puta? Sai da minha frente. – empurrou-a de propósito, visto que havia espaço suficiente para que ela pudesse desviar da garota.</p>
<p>Foi em direção às escadas rolantes, adiantando alguns passos antes de olhar para trás. A desconhecida havia posto frente à face um pano de seda amarela, o qual lhe distorcia a feição. Assustada com a reação da outra, não teve tempo para reconhecer aquilo. Quando os dois últimos degraus se desfizeram, Victoria sentiu seu corpo colidir com a esférica barriga de Helena.</p>
<p>A mulher a tomou pelo antebraço com suas mãos inchadas e queimadas por gordura. Levou-a de volta para a loja e trancou a porta de vidro repleta de pôsteres de bandas. Empurrou-a para trás do balcão, forçando-lhe com o olhar para que se sentasse no banco e prestasse atenção em si. A mesma mão de Helena golpeou o vidro bambo da superfície do balcão.</p>
<p>_Já cansei de chamar a sua atenção, menininha. Igual a você, essa merda de lugar tá cheio. Qual é a sua, hein, filhinha? Você acha que eu sou otária pra pagar uma vagabunda feito você?</p>
<p>Os olhos de Victoria cresciam e avermelhavam-se com o cansaço acumulado e a recém experiência em domínio virtual. Os ombros encolhidos mostravam-se frágeis enquanto a silhueta prostrava-se para frente como um arame farpado incompleto. O cabelo impedia que sua face de desânimo e confusão transparecessem para a vista de dona Helena.</p>
<p>_Olha para mim quando eu falo com você… &#8211; ela começava a frase com a voz ainda escondida na garganta, depois a cuspia de forma rouca e grave. Victoria hesitava em encará-la – Não brinca comigo que eu não sou mulher de brincadeira, hein. Eu to te avisando. – quando a outra acreditava que Helena ia se calar, ela deu um último grito – Olha aqui pra mim!!</p>
<p>O salto assustado impulsionou para cima o queixo de Victoria. Finalmente via a face de dona Helena, distorcida pelo ódio. A partir dali, seus ouvidos começaram a ressoar um apito constante e agudo, crescente em volume. Pelas frestas dos pôsteres colados na porta, enxergou olhos verdes a espiar a cena. O tempo, a partir dali, passava mais devagar.</p>
<p>A entrada de vidro se desfez com um chute de coturno. Os estilhaços foram cuspidos para  a frente e espalhados pelo chão. Dona Helena, boquiaberta, voltou-se para a porta, erguendo os braços pesados com uma dificuldade reforçada apenas pelo efeito de câmera lenta. Aqueles olhos verdes, insanos, estavam famintos por diversão e satisfeitos por adrenalina. As duas mechas azuis da franja colavam-se nas têmporas suadas, pulsantes, de veias ressaltadas.</p>
<p>Na mão dele, uma adaga de lâmina roxa e adereços azuis. No teto, as hélices do ventilador falhavam e se remexiam, fazendo a luz tremer. Piscadelas na lâmpada fizeram a cena contínua se transformar em uma transição de fotografias. O grosso e curto pescoço de Dona Helena foi esticado pela mão preta de luvas de látex. A adaga chegou retilínea e ágil, desferindo o corte com uma destreza digna de trilha sonora. O feixe de sangue crescia e atingia as roupas dependuradas em cabides. Victoria assistia àquela cena como se vestisse aparelhos de simulação.</p>
<p>O som e a velocidade só voltaram ao normal quando ele, o cliente que havia lhe visitado pouco antes de sair da loja, estendeu-lhe a mão.</p>
<p>_Venha. – os dedos dele estavam nus; as luvas estavam no chão.</p>
<p>Saindo dali, Victoria quis conferir, por cima dos ombros, a face repuxada de Dona Helena e o grosso líquido escuro tomando tons rubros ao se espalhar pelo chão. Os olhos dela ainda se moviam, tremendo, a pupila contraída. Dona Helena era grotesca.</p>
<p>_O que você tá fazendo?? Você tá maluco? Você matou uma pessoa!</p>
<p>_Ah, só uma, é? – os dentes amarelos dele sorriam loucos e passionais.</p>
<p>_Eu to fudida. Eu to fudida e você tá me fudendo mais ainda de tá me envolvendo nessa história. – Victoria passava os cabelos da frente para trás das orelhas, enquanto eles desciam os degraus da escada rolante.</p>
<p>_Mas num é o que você queria? Você num queria fuder agora há pouco? – a voz dele um pouco fina; parecia ter perdido a capacidade de engrossá-la antes mesmo de sair da adolescência.</p>
<p>_Vai tomar no cu, valeu?</p>
<p>Já fora da Galeria, ouviam a música de quatro negros a animar uma roda de capoeira. Passaram pelo meio de dois caras de roupas largas a distribuir folhetos de Tattoo Shops. Tomaram cuidado para não escorregar quando, sem querer, pisaram numa poça de chuva e de vômito fresco. Com a mesma adaga ensangüentada, ele cortou a faixa preta e amarela que os impedia de tomar o caminho escolhido. Assim, chegavam mais rápido ao Viaduto do Chá, por onde passaram antes de se esconder em um dos vãos entre prédios. Lá, mais três pessoas os aguardavam. As duas garotas de moicano roxo e pink estavam ali, junto da estranha de cabelo verde.</p>
<p>_Até que enfim, hein, Engel?</p>
<p>_Nem enche, Viper. – o garoto, supostamente apelidado de Engel, respondia a desconhecida de cabelos roxos.</p>
<p>_Que que tá acontecendo? – Victoria olhou para os três, começando por Engel – Vocês têm idéia do que esse imbecil acabou de fazer?</p>
<p>_Se ela tá falando assim, é porque o Engel fez direito. – a figura de moicano pink se remexia, tirando do bolso da calça de oncinha uma lixa de unha. Victoria pensou que seria uma arma.</p>
<p>_É, eu fiz direito, Maggie. – jogou a adaga nos pés da outra, que soprava os dedos da mão. Ele se sentou sobre um caixote de madeira. Apoiou os braços cruzados sobre os joelhos, onde se debruçou. Parecia estar cansado e com ânsia.</p>
<p>_Tá, então vocês queriam matar a velha e? O que eu tenho a ver com isso? – Victoria ainda não conseguia sair do lugar, nem mexer os braços esticados.</p>
<p>_Quem disse isso? A gente queria matar tempo e a velha tava atrapalhando tudo. – a última, de cabelos verdes, se manifestou. Enrolava o pano amarelo em torno da mão – Você ainda não entendeu? Porra, Engel. E você ainda disse que essa aí era esperta. – começou a rir.</p>
<p>_Não enche… Não enche… &#8211; o primeiro foi mais baixo, o segundo quase se tornou um berro da única voz masculina ali.</p>
<p>_Como assim? – Victoria perguntou pouco antes da garota de cabelos verdes pôr frente ao rosto, novamente, o pano amarelo. Puxado para trás e pressionado contra a face, ele se equivalia ao semblante irreconhecível do motorista em BatCave. Victoria se calou por uns instantes, não conseguindo piscar nem fechar a boca.</p>
<p>_Pois é. Como eu ia saber do acidente em BatCave se eu não fosse você? – ela tirou o pano do rosto e começou a se aproximar de Victoria. O pano ascendeu, atingindo o pescoço da outra. Como um cachecol, ela ajeitava o tecido com aparência nobre – Você sabe quem somos. Você sabe que nos procurou. Você só não sabia que nós somos caçadores de IP e que seu registro ficou com a gente.</p>
<p>Victoria ergueu os olhos, enxergando uma passarela que conectava os dois prédios vizinhos. Havia muito musgo ali.</p>
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		<title>Black Krieg &#8211; parte 3</title>
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		<pubDate>Sat, 10 Apr 2010 00:55:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lidia Zuin</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Ao atravessar a rua 24 de Maio, foi para dentro de outra galeria, esta  composta por lojas de produtos eletrônicos e relacionados. Não se  interessou pelas vitrines de LCD flexível e semitransparente, preferiu  acertar as escadarias que cortavam o corredor ao meio. Desceu poucos  degraus antes de conferir quem estaria acima de seus ombros. Ninguém,  parecia.</p>
<p>A camiseta preta masculina, com as mangas cortadas,  havia se transformado numa regata confortável e larga, mas alguma coisa a  incomodava na altura das costelas. Não mais correndo, ainda apertando o  passo, lançou a mão para as costas, tentando alcançar região difícil.  Percebeu que o incômodo, no entanto, vinha da abotoadura do sutiã. Parou  de tentar quando passou por portas automáticas de vidro escuro. Acabava  de chegar na Laser.</p>
<p>Desviando-se de dois nerds de olhos cobertos  por capacetes de realidade virtual, partiu em direção ao banheiro. A  luz negra no lugar escuro fazia suas órbitas brilharem, arregaladas,  numa outra checagem. Ninguém a seguia. Empurrou a placa de plástico  verde e mole até ela se debater e permitir passagem. A parede preta e  bem recoberta por um vasto espelho estava iluminada em vermelho.  Victoria olhou para si mesma – e para as olheiras salientes – antes de  se pôr de costas para o reflexo. Mais um pouquinho e ela alcançaria o  objeto que a cutucava.</p>
<p>_Consegui. – murmurou, voltando-se de  frente para o espelho, por instinto.</p>
<p>Debaixo das luminárias de  vidro, reconheceu um chip escondido em sua lingerie. O cenho franziu  enquanto ela coçava a cabeça e retorcia os lábios ressecados. Saiu dali,  já certa do lugar para onde se dirigiria. Puxou com a sola do coturno a  cadeira giratória e se sentou frente a um computador. A tela descia por  um fio metálico, vindo do teto abobadado. “Como eles fizeram esse teto  sendo que a loja é subterrânea?”, perguntou-se. Deu de ombros, coçando o  nariz irritado pela rinite. Passou o cartão de crédito pelo leitor da  máquina e comprou alguns minutos.</p>
<p>O chip foi inserido num leitor  de cartões de memória. Rapidamente uma janela saltou na tela achatada.  Com o indicador, Victoria selecionou a opção “ler cartão”. Uma nova  janela, uma pasta, uma página a ser carregada no browser. Sentia os  joelhos fazendo pressão debaixo da superfície de plástico rígido, que  servia de mesa. Vai, vai! Sussurrava em desespero a ânsia de que um site  suspeito ou comprometedor fosse descoberto ali. Mordia o lábio  inferior, sentindo a carne se machucar debaixo dos dentes.</p>
<p>_Black  Krieg? – falou alto demais, num desânimo e desaprovação tão grande que  fez os clientes ao redor checarem por cima de suas divisórias o que  havia acontecido. Um deles enxergou a tela de Victoria e preferiu voltar  para seu joguinho de Facebook – Porra, que merda!</p>
<p>Guardou o  cartão no bolso, mas desprezou o chip encaixado no leitor de cartões. A  conta ficaria aberta por mais uns cinco minutos, mas ela não se  importou. Um garoto obeso viu a máquina carregada e disponível. Agarrou a  oportunidade como um mendigo engole uma dose de álcool barato. Victoria  já havia partido para a sessão de games, onde se debruçou num fliperama  que tinha o formato das máquinas do século XX, as que funcionavam para  games de luta, os tal CAPCOM. Os braços cruzados serviram de apoio para  os olhos inchados de sono.</p>
<p>_Que merda, velho, que merda… &#8211; bufava  de ódio ao concluir que aquilo havia sido apenas uma maneira idiota de  se fazer publicidade de um blog. Provavelmente aqueles punks foram pagos  para abordá-la de tal forma. Que vontade de trabalhar…</p>
<p>Um último  suspiro foi suficiente para lhe dar vontade de se erguer e creditar a  máquina para uns quinze, vinte minutos. Dona Helena que se fodesse um  pouquinho, concluiu. O cartão de crédito permitiu que dez reais  comprassem vinte minutos de simulação. Desceu a cabeça em direção a um  buraco em formato de óculos para mergulho, daqueles de lente contínua.  Os antebraços foram acomodados em dois canos cortados em seu diâmetro,  os dedos repousaram numa superfície com textura semelhante à de uma  prótese de silicone. Procurou relaxar e se concentrar após vinte  segundos de advertising.</p>
<p>O equipamento, ao entrar em contato com  as têmporas do cliente através do orifício visual, emitia impulsos  elétricos específicos que seriam traduzidos pelo cérebro do jogador. Nas  mãos, a mesma coisa, mas ali se priorizavam os impulsos mecânicos, de  sensação física relacionada ao contato. Não havia cheiro nenhum, mas  Victoria tinha certeza que sentia um aroma de tutti-frutti, daquele  mesmo que acompanha fumaça de clube. Esse era o sinal de que tudo estava  OK e agora era só se permitir aproveitar.</p>
<p>A viagem era curta, um  piscar de olhos traduzido num choque de luz disfarçada pela iluminação  ambiente. Já cadastrada no Laser, Victoria possuía um perfil e um avatar  personalizado para usar tanto na simulação BatCave 3.0 quanto em  qualquer outra. Não mais de cabelos pretos, mas violetas e raspados até  formar um moicano caído à direita, tinha as íris vermelhas e cinco  piercings distribuídos pela cartilagem da orelha esquerda.</p>
<p>Dentro  de um macacão de vinil preto, sentia-se pouco acostumada mas bastante  segura. A cintura afinada artificialmente por um corpete de couro  tingido de roxo se remexia numa dança peçonhenta. Agarrada a um pilar de  metal espelhado, descreveu o círculo que sustentava a decoração próxima  ao palco. Achava que aquele objeto lhe permitia sustentar uma  performance de stripper, ainda que suas vestes fossem custar meia hora  para serem retiradas. Mas gostava de riscar o chão espelhado com a ponta  dos saltos finos e adorava os olhares curiosos alimentados pelo tesão  mal disfarçado. Ria, com seus lábios pretos.</p>
<p>BatCave era um  simulador de clube noturno, mas possuía uma extensão que podia levar os  jogadores para fora do estabelecimento. A parte externa era pequena,  limitava-se a uma rua em que os términos se ligavam e formavam um  círculo vicioso. Dali o jogador podia escolher algumas portas que  transferiam o crédito de uma máquina para a outra, desde que disponível.  Só assim o cliente poderia escolher uma nova simulação. Então, não era  surpreendente que uma mão surgisse, do nada, e lhe puxasse para fora do  clube. Quando Victoria percebeu seu braço agarrado por dedos nus, mal  teve tempo de checar a face do estrangeiro, só o descobriu pelas costas.</p>
<p>De  cabelos curtos e boa estatura, o homem mantinha ombros demasiadamente  largos e demarcados de acordo com a cintura fina demais. Parecia uma  figura humana distorcida no Photoshop, desproporcionalmente repuxada na  vertical. Sua pele era amarela, de um tom forte e certo, sem presumir  algum tipo de doença conhecida no mundo real. O antebraço descoberto  pela camisa branca de manga arregaçada não possuía pêlos e a textura era  viscosa, quase dando impressão de umidade por conta da temperatura  baixa que mantinha. Achou nojento, mas os braços cobertos por luvas de  látex impediram maior contato e troca de calor.</p>
<p>_Oi? – sua voz  modificada era rouca e mais grave que a verdadeira, fina e pouco adulta.</p>
<p>Sem  ter resposta, imaginou que o homem fosse algum tipo de tarado e tratou  de se livrar do braço dele. Por alguns bônus acumulados ao longo dos  meses de jogo, Victoria havia comprado pontos de força. O estranho  amarelado voltou-se para ela, assustando-a ao se mostrar desprovido de  face. Seu rosto parecia coberto por um saco de batatas, como se ele  fosse um personagem dos quadros de Magritte, apesar da cobertura ter a  mesma textura de sua pele. Finalmente, Victoria percebeu que não haveria  conversa entre os dois e que seu asco pelo outro havia aumentado, assim  como o medo.</p>
<p>Resolveu se deixar levar, permitindo que  ultrapassassem a porta giratória que dava entrada ao clube. Depois de  muito tempo sem o fazer, ela pisava na calçada de cimento poroso. A rua  estava iluminada em tons róseos, como se fosse fim de tarde ou começo de  manhã. Um carro estava estacionado próximo a um hidrante adornado por  holopropaganda de shampoo para cabelos descoloridos.</p>
<p>_Como assim  um carro, aqui? – perguntou, sem cuidar que não haveria resposta senão  uma porta aberta e um empurrão para dentro do veículo. “Como um veículo  estaria programado para funcionar numa rua literalmente sem saída?”,  pensou.</p>
<p>No volante, sentou-se o mesmo homem sem face. A viagem  parecia dar no que deveria dar: rua contínua, loop de cenário.  Entretanto, o carro cruzou a esquina e continuou seguindo por uma  estrada bem construída, com todos os acabamentos bem feitos e  programados. Colada à janela do banco de trás, passou a socar o vidro,  tentando quebrá-lo. O homem sem face aumentou a velocidade do carro,  alcançando mais de 120km/h.</p>
<p>_Puta que pariu. – se ela pulasse,  perderia o avatar.</p>
<p>As regras eram as mesmas do mundo real, a  única diferença é que com fidelidade ou com créditos você conseguia  pagar por mais força, velocidade, itens cosméticos e objetos de posse.  Isso, no entanto, não significava imortalidade ou menor probabilidade de  morrer numa tentativa tola de fugir. Ela acessou o controle pessoal e  percebeu que faltavam alguns minutos para seu turno acabar.</p>
<p>_Foi  mal, esquisito, mas já vou indo, hein. Fui. – no canto de seu olho, um  cronômetro luminoso informava menos de um segundo para o fim do jogo.  Ela abriu a porta do carro, pretendendo se jogar no instante em que o  turno finalizasse. Acontece que o relógio cravou no 00:00:00 e a porta  do veículo não se abriu quando ela chutou – o movimento foi impedido  pela resistência do ar. Victoria encolheu-se quando o motorista acertou o  retrovisor, “olhando-a” lá atrás.</p>
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		<title>Black Krieg &#8211; parte 2</title>
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		<pubDate>Wed, 31 Mar 2010 02:47:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lidia Zuin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[As pálpebras  escorreram contra as ascendentes íris cor de mel. As pupilas se  contraíram com o susto e logo se dilataram com a pouca iluminação do  trem subterrâneo. Pelo túnel, o veículo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>As pálpebras  escorreram contra as ascendentes íris cor de mel. As pupilas se  contraíram com o susto e logo se dilataram com a pouca iluminação do  trem subterrâneo. Pelo túnel, o veículo corria tão silencioso quanto um  vulto. As luzes de teto piscavam, falhando a cada dois ou três segundos.</p>
<p>Em pé,  dependurava-se numa das barras horizontais de metal. Com o coturno,  ganhava altura suficiente para correr os dedos pelo teto de plástico  verde, cor que lhe lembrava um hospital. O ar condicionado parecia mais  forte com a falta de gente no vagão. Um tiozinho japonês lia seu <em>shinbun, </em>sentado ao lado de sua provavelmente mulher, uma  japonesa de cabelos cacheados. Os dois tinham mania de piscar os olhos  com mais força que o necessário.</p>
<p>Depois de algumas baldeações, finalmente chegou na  estação Anhangabaú. Algumas levas de escada rolante e finalmente ela  preenchia os pulmões com o cheiro de espetinho de gato. A churrasqueira  girava rolos de carne de origem suspeita. O odor era interessante, mas o  aspecto decorado por moscas fazia o estômago revirar. Passou reto. Usou  as últimas moedinhas para comprar um pacote de goma de mascar, num  camelô de docinhos. Mastigava duas gomas juntas.</p>
<p>As obras no Teatro  Municipal não acabam nunca, pensou. As telas verdes, parecidas com  aquelas usadas em estradas, quando contratam caras para aparar o mato,  cobriam o prédio decrépito. Conseguia achar certo charme naquelas  pichações militantes. Nas penúltimas eleições municipais, uns grupinhos  organizados e supostamente politizados resolveram brincar de pichar “A”s  de anarquia nas paredes da construção. A única coisa mais interessante  foram os stickers de homens rastejantes que colaram às escadarias, onde  bêbados e mendigos passavam boa parte do dia vomitando e bebendo, não  necessariamente nessa ordem.</p>
<p>_O Senhor bem vê, irmãos, quem são aqueles que pecam.  São os mesmos que irão pagar, no futuro, por todos os males que fizeram  no passado e no presente!</p>
<p>Um anão grisalho pregava ali em frente à loja de  eletrodomésticos. Com a bíblia eletrônica aberta frente aos seus pés, um  holograma se movia representando Jesus e alguns apóstolos. O frenesi  veio quando finalmente uma cruz subiu, fumegante, trazendo Cristo  dependurado nela. O homenzinho se exalta, cuspindo saliva e sermões. Ela  passou meio longe, atravessando a rua.</p>
<p>Os camelôs dali do centro mais-que-velho  ainda gostavam de vender DVDs de pornografia, filmes ainda nem lançados  no cinema nacional e jogos para computador e videogame. Recentemente,  alguns estão tentando vender smartphones e netbooks também, mas eles são  ainda mais autônomos: não possuem nem barraca, chegam do nada com uma  ladainha de que “esta é a mais moderna versão” de tal coisa. A garota  prefere deixá-los falando sozinhos. Seu destino estava bem próximo, ali  rodeado por mais um bando de gente que passeava em seu horário de almoço  ou que está distribuindo panfletos com propaganda adornada por  realidade aumentada.</p>
<p>Entrou na Galeria do Rock. Falar que aquilo está para  cair já é redundante há mais de cinqüenta anos… Mesmo assim, isso não  era problema para os tatuadores que fumavam seus cigarros Ink, de fumaça  colorida, perto de uma das entradas. Quando passava por eles, a garota  os cumprimentava com um toque de mãos ou um aceno com a cabeça. Enjoava  cumprimentar os mesmos putos todos os dias.</p>
<p>Foi até o terceiro andar, para a loja de  roupas e acessórios em que trabalhava. A proprietária, dona Heloísa, já  estava bufando com seus lábios engrossados pela ascendência africana.  Resmungou qualquer coisa que a garota preferiu não ouvir. Passando pelas  costas dela, usou a escada vertical de ferro para subir no estoque.  Bebeu um copo de água guardada no frigobar e ajeitou o cabelo no reflexo  de uma panela de inox que a mulher guardava lá meio que sem motivo.</p>
<p>_Pronto, dona  Helena… Pode ir almoçar. Eu tomo conta da loja. – ainda ajeitava o  cabelo quando voltou ao andar de baixo. Um punk analisava as calças  xadrez dependuradas em cabides de plástico preto.</p>
<p>_Menina, eu acho bom  você regular seu horário de trabalho. Ou chega na hora ou rua, falou? – a  cinqüentona era um misto de cantor americano de rap com funkeira  detonada pela idade. O strass que perfurava sua narina direita brilhava  em rosa.</p>
<p>_Tá  certo, dona Helena. Prometo me comportar. – sentada no banco onde estava  a chefe, passou a arrumar os cartões novos num recipiente metálico – Se  puder, traz uma Coca para mim, vai?</p>
<p>A mulher preferiu não responder. Deu-lhe as  costas e partiu galeria abaixo.</p>
<p>_Aí, tem provador, não?</p>
<p>_Tem não. – ela nem quis olhar para a cara  do rapaz que conferiu só pela nuca, raspada.</p>
<p>_Porra, então como é que eu vou saber se  serve? – ele resolveu se aproximar do balcão, onde estendeu a calça de  xadrez vermelho e preto que havia escolhido.</p>
<p>_Enfia no cu para ver se gira. Se girar, é  porque serve. – ergueu os olhos, finalmente descobrindo a face do  cliente.</p>
<p>Os  olhos dele eram bem verdes e o cabelo, condensado numa grossa mecha  comprida que partia da franja, estava alisado para trás, colado ao  crânio. Duas mechas tingidas de azul caíam sobre os olhos dele, meio sem  querer, sem fazer parte do penteado. Tinha um piercing no septo e outro  no canto inferior do lábio. O rosto, levemente afinado, apesar dos  maxilares devidamente viris, estava meio encardido de preto. Até que era  um charme seu, proclamado pela expressão boquiaberta da vendedora  escrota.</p>
<p>_’Cê tá  me tirando? – os braços finos subiram ao balcão de vidro, onde se  apoiaram para que ele ganhasse proximidade da garota que o provocava.</p>
<p>_De repente, até  tô. – a agressividade dela se traduziu num sorriso de canto adornado  pelo puxão que ela mesma promoveu.</p>
<p>A mão de unhas pretas correu à nuca raspada,  repetindo o ato que o punk promovia ao puxar a vendedora pela gola de  seu casaco de couro. Ela se levantou do banquinho de madeira envernizada  e, com um dos cotovelos sobre o balcão, apoiou-se sobre uma perna para  alcançar a boca fina e comprida do cliente.</p>
<p>Levou-o para trás da bancada, fez o garoto  ir ao chão. Tirou sua regata branca e rasgada, jogou-a longe; começou a  abrir a fivela do cinto de projéteis. Ele já havia retirado a jaqueta  dela e rebaixado as alças da blusa e do sutiã. O punk sentado, a garota  de joelhos. Alguém entrou na loja. A cabeça preta e arrepiada da menina  se ergueu até alcançar a parte superior do balcão. Seus olhos  arregalados identificaram duas garotinhas de vestido preto e colar de  pentagrama verificando uns corpetes de renda e fitas de cetim.</p>
<p>_Não tem provador?</p>
<p>_Não. – a mão da  vendedora mantinha a cabeça do punk abaixo do campo de visão das  clientes. Ele aproveitava a situação para desabotoar a calça de couro  dela, sem ser suficientemente esperto para reparar nos coturnos de  fivela.</p>
<p>_Então  tá. – cheias de desdém, as pirralhas partiram para fora da loja. A  atendente voltou ao que lhe interessava.</p>
<p>O pouco movimento no andar, durante os dias  de semana, parecia favorecer a idiotice dos dois desconhecidos. Ele  retirou a camisinha de dentro do bolso da calça e se preparou para  demonstrar seu talento.</p>
<p>_Ô, Victoria, tinha só Pepsi lá no boteco. – dona  Helena voltava, exalando perfume de toucinho.</p>
<p>_Puta que pariu. – ela  ergueu a calcinha e a calça, fechou o botão sem subir o zíper e deu um  chute no punk, empurrando-o até se esconder atrás de uns sacos de lixo  preenchidos por camisetas recém chegadas.</p>
<p>_Que é?</p>
<p>_Nada não. – a cara de susto de Victoria fez  dona Helena franzir o cenho e olhar para os lados procurando algo  errado ou fora do lugar. O nariz da mulher remexeu-se com duas fungadas  profundas.</p>
<p>_To  sentindo um cheiro estranho aqui.</p>
<p>_Cheiro de quê? – seu sorriso forçado fazia o suor  escorrer por detrás da franja.</p>
<p>_Sei lá. Deve ser essas merdas de coturnos novos. –  dona Helena finalmente foi para trás do balcão e, com certa dificuldade,  subiu a escada que levava ao estoque.</p>
<p>Victoria puxou o punk pelo braço e o fez  levantar ainda de calças arriadas. Não disse nada, fez o possível para  gesticular uma ordem que o fizesse sumir logo dali. Com o pênis exposto e  a proteção mal encaixada, ele ergueu o jeans e saiu com a camiseta em  mãos. Mesmo irritado, o punk revirou os dedos indicadores indicando,  numa mímica, que iria voltar depois. Victoria assentiu, mandando-o  desaparecer com as duas mãos.</p>
<p>_Dona Helena, vou ao banheiro, falou? – gritou lá de  baixo, minutos após se recompor. A mulher respondeu com um resmungo  positivo.</p>
<p>Caminhou  até o meio do corredor espaçado por escadas rolantes ascendentes e  descentes. Ia entrar no banheiro unissex quando viu de longe uma  movimentação se formar na sacada. Tinha alguém jogado no chão,  aparentemente abandonado após terem finalizado o serviço. Quase  encostada às vitrines das lojas, foi se aproximando para melhor enxergar  quem era. As vestes denunciaram que era o mesmo cara com quem quase  havia transado há alguns minutos. Impulsiva, correu em direção a ele.</p>
<p>_Que foi? O que  aconteceu?! – ia se abaixando quando de dentro de uma loja de CDs duas  meninas de moicano pink e roxo saíram, de repente.</p>
<p>_Vai com calma, ô  biscatinha. Para quê tanta pressa? – Victoria foi apanhada durante a  corrida. Uma das meninas a segurava pelo braço e a outra pelo cabelo,  puxando-a pela nuca – Você precisa esclarecer umas coisas aqui para a  gente.</p>
<p>_Vão  tomar no cu! Me solta, porra! – remexia-se, percebendo que quanto mais  resistia, mais elas lhe apertavam. O cara jogado no chão se levantou,  sorrindo.</p>
<p>_Como é  que é? – conduzido pela menina de moicano roxo, o rosto de Victoria foi  esfregado contra a vitrine da loja de CDs de bandas punk do século XX –  Mais respeito, caralho.</p>
<p>Golpeou o estômago da menina com o cotovelo.  Surpreendida pelo golpe, a agressora deixou fraquejar os dedos e  permitiu que Victoria escapasse. Ela partiu em disparada, descendo  manualmente as escadas rolantes. Foi para a rua, mesmo com medo de que  aquilo fosse uma emboscada. Correu para a galeria à frente, empurrando  quem lhe obstruísse o caminho. Tentaria sair na outra rua, mais  movimentada e mais fácil de se esconder, por um tempo. De repente, todos  os olhos resolveram acompanhá-la.</p>
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		<title>Black Krieg</title>
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		<pubDate>Thu, 25 Mar 2010 02:08:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lidia Zuin</dc:creator>
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		<category><![CDATA[brasil]]></category>
		<category><![CDATA[cyberpunk]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>As formas rudes do caminhão de lixo eram amenizadas  por feixes luminosos de neon verde. A carapaça de ferro escuro  enferrujou com as chuvas e a tinta está lascada. Na traseira,  dependuram-se um homem e duas mulheres; dois deles estão de macacão  plástico verde luminescente com faixas prateadas que reluzem ao contato  da luz. A restante pega carona, segurando-se numa das alças acima de um  par de faróis brancos.</p>
<p>_Vou nessa. Valeu pela carona. – ela acena com as  sobrancelhas e salta do veículo lento e pesado demais.</p>
<p>_Te vejo mais  tarde, hein? – responde a coletora de cabelos escondidos pelo boné.</p>
<p>A jaqueta de  couro é curta, desce poucos dedos abaixo da cintura. Remexe-se conforme  ela balança os ombros ao ritmo dos passos. Puxou do bolso da calça de  sarja preta os fones de ouvido já conectados ao smartphone. Balbuciava a  canção que  estourava os tímpanos, num volume não  recomendável à audição. Cruzou a esquina e caminhou por mais uns dez  minutos até alcançar o grande prédio universitário. Alguns matavam aula  fumando, sentados no canteiro sem flores.</p>
<p>Sem ter quem cumprimentar – e sem  vontade de o fazer –, partiu para os elevadores. Eram panorâmicos,  aqueles malditos: bem incitavam a desistência dos alunos. Mas ela  alcançou o décimo terceiro andar, reservado à graduação em Interpretação  de Tendências. Era o menos disputado no vestibular e também parecia, de  certa forma, muito tranqüilo de se cursar. A verdade é que as aulas  eram um marasmo contínuo, um blábláblá descomprometido com a vontade  daqueles que preenchiam as carteiras de alumínio e plástico transparente  (aboliram a superfície opaca por causa dos graffitis).</p>
<p>Não tinha  ninguém sentando na frente. Fez bem em voltar a cadeira para si e fazer  do assento um apoio para os pés apertados por coturnos novos. Podia  sentir e prever a pele dos tornozelos amolecida pela transpiração e  fricção. As meias estariam salpicadas de sangue. Coçou o nariz  ruidosamente, fazendo um garoto de cabelos compridos e maquiagem rosa se  voltar raivosamente para ela. Montou nos lábios um murmúrio de  repreensão, ele a recobriu de desdém.</p>
<p>A cabeça estava tão pesada que precisou  se unir à carteira vazia. Enquanto os demais portavam seus netbooks e  iPads, ela não trazia nada senão o smartphone com pouca bateria, uma  cigarreira, um isqueiro e uns trocadinhos da noite passada. De domingo  para segunda, reunia-se no centro com uns amigos e conhecidos,  companhias terceirizadas. Faziam maratona, transferindo-se de uma matinê  dominical para um boteco qualquer. Enquanto se ajeitava e procurava  atender as pálpebras sonolentas, recordava-se de algumas pérolas  trocadas durante o ápice da bebedeira. Riu sozinha e finalmente  cochilou.</p>
<p>Só  acordou quando o smartphone vibrou no bolso da calça. Mensagem  promocional da operadora. Essas merdas sempre atormentavam, mas também  oferecem vantagens, por exemplo, uma mp3 de brinde. Quem vê pensa que é  preciso comprar música ou participar de promoções para poder ouvir  alguma coisa… Seus lábios tremeram num gesto de desprezo e graça diante  do anúncio eufórico. Acabava de receber um link para baixar o novo álbum  de Patrick Starglitter, um astro teen patrocinado pela sempre  ascendente Disney.</p>
<p>Levantou-se da carteira, pondo o aparelho de volta ao seu  lugar. Saiu da sala em meio à reprodução de um vídeo e foi para o  banheiro fumar. O vaso sem tampa não proporcionava muito conforto, mas  com a bunda apoiada no bico da privada, até que dava para agüentar. Os  joelhos unidos fingiam apoiar e os calcanhares levantados reforçavam o  mesmo. O queixo erguido direcionava a fumaça para cima, ao mesmo lugar  para onde ela olhava. O teto estava cheio de papel higiênico grudado e  uns stickers que brilham no escuro. Um deles anunciava o site do time de  holovôlei universitário e um outro que ainda não tinha visto: era  recente, sugeria um blog de nome esquisito.</p>
<p>Dependurado o cigarro entre os lábios  ressecados, usou o smartphone e a wireless local para acessar o tal  endereço <a href="http://www.blackrieg.blog.br/">www.blackrieg.blog.br</a>.  O layout escuro e preenchido pela velha história da propaganda ao  estilo Segunda Guerra Mundial anunciava um bando de baboseira despejada  em posts enormes. Com o polegar, deslizava a tela procurando figuras ou  vídeos, coisas mais fáceis e rápidas de se conferir. Uma janelinha do  YouTube indicava “Diversão Black Krieg”. Meteu o dedo no <em>play</em>.</p>
<p>Sem  precisar aguardar que os três minutos fossem carregados, já foi  verificando uma filmagem trêmula, meio escura senão pela iluminação  amarelada, provavelmente urbana. Era a Augusta, a baixa Augusta. Tinha  uns carrinhos de lanche improvisados em peruas luminosas, uns caras  jogados no chão cheio de flyers. O câmera narrava e instigava o  espectador de que algo muito emocionante iria acontecer dali em diante.</p>
<p>Do chão ao  horizonte, a lente capta três carecas de jaqueta verde militar, uma  menina de moicano comprido e uma outra de cabeça raspada também –  provavelmente tinha mechas compridas frente às orelhas e franja curta,  acima das sobrancelhas. Confirmou o corte quando essa mesma pessoa  voltou-se para a câmera e pediu para desligar “aquele caralho”. O câmera  sacudiu seu dispositivo para os lados, indicando negação. Ela lhe  devolveu o dedo do meio.</p>
<p>Chegando ao lugar prometido, os cinco filmados abriram  espaço para a câmera focar um homem negro de dreads compridos. Acomodado  numa grade de arame, o indigente dormia com os dedos cruzados e  apoiados sobre a barriga pouco saliente. Escondia-se em roupas escuras e  encardidas, umedecidas pela garoa recente. Um dos carecas cutucou o  homem com a ponta metálica do coturno.</p>
<p>_Ei, cuzão. Cuzão.</p>
<p>O mendigo  levanta as sobrancelhas grossas com pouca vontade, mal abre os olhos  grudados por remelas. Os lábios estalam enquanto ele prova o gosto ruim  da boca.</p>
<p>_Levanta,  filha da puta. – outro careca, com um dragão tatuado na nuca, empurra a  cabeça dele para o lado. O homem resmunga – Vai reclamar, viado?</p>
<p>_Viadinho. –  reclama a garota de moicano, que revela portar um taco de baseball. O  som de correntes ressoa meio baixo, mas logo se confirma conforme o  terceiro careca ajeita um par delas nas duas mãos cobertas por luvas sem  dedo.</p>
<p>_Você  é a escória, seu filha da puta. Vagabundo. Se tá onde tá, é porque é  vagabundo. – um primeiro golpe deixa o rosto do indigente avermelhado e  abre um leve corte abaixo do olho.</p>
<p>Ele ergue as mãos, encolhe-se em sua  insignificância e o círculo de agressores vai se fechando ao redor dele.  O câmera tenta alcançar a cena em visão panorâmica, mas os chutes  rápidos e seguidos vão dificultando o trabalho. Eles riem e repetem as  mesmas ofensas, às vezes tentam justificar a agressão, mas não dá para  ouvir muito bem. A espectadora do vídeo franze o cenho enquanto o  cigarro queima tanto que as cinzas caem no chão, sem ela perceber.</p>
<p>Os instantes  finais são reservados para a contemplação do indigente desacordado, do  vômito ensangüentado, dos dentes misturados à pasta regurgitada. A  menina do moicano passa os dedos pelo bastão e fricciona a ponta deles,  mostrando ao espectador a cor rubra do líquido que tinge suas unhas  roídas.</p>
<p>_Sangue  de vagabundo, gente que merece se fuder. Enquanto você, seu imbecil,  trabalha feito um filho da puta todos os dias, esses malditos fazem cara  de dó para pedir esmola.</p>
<p>_Esmola é o caralho! É seu salário, seu bostão. –  complementa a careca.</p>
<p>_É, idiota. É você que fica lá agüentando a porra das oito  horas, a merda do escritório sem janelas, o viado do seu chefe e a  miséria do salário. É você que paga imposto pra tá onde tá, que paga até  pra poder viver. – a menina do moicano continua.</p>
<p>_Cidadãos  tapados do cacete. – diz um dos carecas – Vivem essa vidinha de  assalariado e ainda vão ter dó desses merdas? Eu to falando de você,  classe média, não esses empresários viadinhos que dão o rabo para  megacorporações!</p>
<p>_<em>This is our democracy, it’s one for you and two  for me</em>!* – a menina de moicano canta rindo, dando cotoveladas na  amiga.</p>
<p>_Black  Krieg tá aqui para isso, para fuder com esses vagabundos. Leia nossa  filosofia e saiba quem somos antes de criticar, seus merdas. – o careca  das correntes anuncia, apontando para a câmera. O vídeo acaba.</p>
<p>Mordia o lábio  inferior quando os vídeos relacionados deslizaram pela janela do  YouTube. Sem saber bem o que pensar, ficou confusa entre concordar e  decidir que aquilo era a própria prática da barbárie. O cigarro  consumido pelo tempo foi deixado dentro do vaso antes de sair da cabine.  Apoiou-se sobre a bancada de pias e pisou sobre o botão de acionamento  da água. Preencheu as duas mãos unidas em concha e lavou o rosto cheio  de maquiagem borrada.</p>
<p>Desceu os mesmos elevadores panorâmicos, tomando ciência  da tempestade que caía lá fora. Sem guarda-chuva, já tinha noção de que  ia chegar ensopada no trabalho e que ia levar um esporro daqueles. Mas  precisava caminhar mais uns dez minutos até chegar à estação de metrô  mais próxima da universidade. Os ônibus não eram uma boa alternativa  diante do trânsito formado.</p>
<p>Sem pensar muito, fechou o zíper da jaqueta e  encolheu os ombros, a cabeça abaixada e o rosto franzido pela chuva.  Muita gente caminhava por lá, poucos eram tão ferrados quanto ela para  não ter nem guarda-chuva, nem capa, nem dinheiro para gastar com isso.  Enfim, desceu pela escada de cimento e passou o cartão pela catraca.  Saldo insuficiente.</p>
<p>_Ô puta que me pariu. – relinchou, voltando para a entrada  da estação, onde se formava uma fila diante de uma das máquinas de  recarregamento.</p>
<p>Quando finalmente chegou sua vez, inseriu o cartão e digitou o  número da conta bancária, os códigos de segurança e a senha. Pôs logo  uns dez créditos – começo de mês sempre pressupõe esbanjamento. Outra  fila a ser enfrentada, na catraca. Achava incrível como há alguns  minutos aquelas porcarias estavam vazias e agora estavam acumulando  gente umedecida de chuva e fedendo a borracha de galocha.</p>
<p>De braços  cruzados e cabelos pingando, retorcia os lábios finos e suspirava de  três em três segundos. Finalmente conseguiu passar pela catraca, pelo  sorrisinho de canto do segurança e pelos degraus rolantes. O trem  magnético chegou uns cinco minutos depois. Encostada num dos pilares da  plataforma, não pretendia olhar muito para os lados para não achar  nenhum engraçadinho que fizesse comentário ou direcionasse a atenção à  ela. Tinha frio, mas não chegava a tremer. O ar condicionado se  enfraquecia diante de tanta gente.</p>
<p>Quando se deslocou para entrar no  transporte, teve seus passos cortados por um grupo que se encaminhava às  escadas. Teve sorte de conseguir parar antes de ser atropelada por um  grandalhão de têmporas raspadas. O homem a olhou de cima de seus quase  dois metros de altura e resmungou qualquer frase repreensiva. O alarme  do trem ressoou e as portas quase a prensaram. Voltou-se para a  plataforma, quando o metrô já se punha em movimento: o homem ainda a  encarava, acompanhado de mais três curiosos integrantes do grupo. Um  deles tinha um dragão na nuca. O vapor quente de sua boca tingiu de  branco o vidro das portas.</p>
<p>*Trecho da música Democracy, da banda  FGFC820.</p>
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		<title>Inconsciente</title>
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		<pubDate>Sat, 13 Mar 2010 18:15:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lidia Zuin</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu tinha uns 17 anos naquela época. Invariavelmente, saía de casa para  comprar algo ou inventava um afazer para poder me distrair fora de  quatro paredes. Levava comigo nada senão alguns trocados no bolso do  vestido rodado, as sapatilhas pretas e brilhantes, as meias finas  cor-de-neve. Cruzava a primeira esquina, do quarteirão frente ao sobrado  onde morava. Reparava nos espaços de cimento entre os tijolos das  paredes avermelhadas, as janelas de vidro quadriculadas em suportes de  madeira escura. O menino negro de mão hasteada, segurando um jornal  escandaloso. Nada influenciava meus ouvidos que, adormecidos, pareciam  escutar apenas o ronco dos carros e os estalidos do bonde.</p>
<p>Sabia  quem era ele, ali. Num quebra-cabeça indumentário, o garoto pouco mais  novo que eu, misturava calças com bermudas, casaco com blusa e deixava  os cabelos loiros, muito finos, cresceram até a altura do quadril. Era  uma criança tão lívida quanto o inverno, tinha os maxilares afinados  demais para um garoto, mas os olhos verdes e agressivos guardavam uma  virilidade a se desenvolver. Pagava uma moeda para o senhor de boina e  bigode, munia-se de uma espingarda falsa e dispunha-se de três tiros de  chumbinho para derrubar latas de comida enfileiradas numa estante.</p>
<p>Conhecia aquela pouca estatura, as botinas marrons e o nariz pequeno,  empinado. Aproximava-me silenciosa, recoberta do pudor que uma aprendiz  de dama devia se recobrir. Escondia os cílios entre as luvas de renda  branca, fingia não espiar de canto aquele garoto, menor que eu,  erguer-se, em espírito, maior que um rei. Um tiro, nenhuma lata. Outro  tiro, nada. No terceiro, ele me olhou por sobre o ombro, descobrindo-me  espectadora de sua brincadeira. Sem reação, voltou-se para as latas e,  enfim, uma acertou. Deu de ombros, afinal, o prêmio só viria se todos os  tiros não fossem em vão.</p>
<p>_Parece fácil, não é? – ele me  perguntou, numa naturalidade fraterna. Reconheci, assim, que sua face  estava encardida de cinzas e fuligem. Sabendo que meus olhos bem se  abriram, negros e brilhantes, diante da surpresa, ele riu e  complementou. – Mas não é.</p>
<p>Encantava-me a voz pouco grossa de  uma pré-adolescência e maturação não avançadas. De repente, estávamos os  dois andando enfileirados, lado a lado, como amigos que passam tardes  entretidos com bolas de gude e carrinhos de brinquedo.</p>
<p>_Como se  chama? – fez-me esta questão.</p>
<p>_Laura Stuart. &#8211; respondi  prontamente.</p>
<p>Não havia me atrevido a perguntar seu nome e assim  pareceu bem ao meu companheiro de caminhada. Eu nem mais sabia qual  destino seguíamos, mas ele logo saltou da calçada e pôs-se em disparada  sem nada me dizer. Era pelo menos a quarta vez que nos encontrávamos e  ele insistia em não me reconhecer. Fugia, desaparecia e, depois, só ele  me achava, quando bem entendesse.</p>
<p>De volta para casa, de mãos  abanando, mamãe vasculhava o que havia me puxado para fora e que razão  me recuperava para dentro. Respondia-lhe com súplicas e desculpas que  eram bem aceitas, de acordo com os costumes da submissão mãe-filha. Mais  tarde nasceria a raiva paterna diante de minha “subversão”.</p>
<p>Em  meu quarto, rascunhava mapas de pensamento, tentava ligar palavras num  sentido lógico que repercutissem no detalhamento de meu trajeto, de meu  encontro, do estranho. Desenhos tortos, mal feitos e desleixados não  conseguiam alcançar a sublime delicadeza de um anônimo de nome,  temperamento e origem. Não reforçava o lápis contra o papel almaço,  construía-o fantasmagórico. Arrancava a página e, amassada, jogava-a no  cesto de lixo, de forma que ali pudesse sepultar uma imagem que queria  manter só em minha mente.</p>
<p>Depois do jantar e das lições de moral  adornadas por um bigode tão rústico quanto as idéias, escondia-me  debaixo das cobertas e forçava os olhos até as pálpebras brilharem e eu  conseguir me desfazer em sonho. Formava-o em cores pastéis, num quadro  rococó preenchido de luz, delicadeza e animais domésticos que conosco  brincavam. Acordava, no dia seguinte, mais feliz e ansiosa pela surpresa  do desconhecido.</p>
<p>Andava pelas ruas escondendo-me por detrás dos  cabelos castanhos. Pedia para que de cada esquina saltasse um rosto  pálido e sorridente para interromper meu tedioso trajeto. A escola, as  carteiras escuras de madeira, as folhas de matéria substituídas por  poemas. O rádio no bar da avenida, as canções belas reproduzidas. Nada.  Depois de ter-me preenchido e esvaziado o pulmão duas ou três vezes  prolongadas, desistia da empreitada por achar o louro garoto que, após  dias sem vê-lo, parecia fazer parte apenas de minha mente.</p>
<p>Uma  rua a percorrer, uma esquina a dobrar e a porta de casa, vítrea, reluzia  o sol poente e meu reflexo entristecido. Um berro desvairado, passos  rápidos como os de um perseguidor e fios áureos brilham num único raio  de sol desfeito ao piscar de olhos. Abracei-o como um animal faminto  agarra a presa. Não quis soltá-lo, não quis me desfazer das batidas  fortes e enlouquecidas que meu coração reproduzia. Sem entender, ele  resmungava, como um bebê teimoso que não aprecia a bajulação. Afastado  de mim, olhou-me com rancor e me perguntou o que eu queria. Brilhantes,  minhas íris negras reservavam lágrimas de desespero e de obsessão.<br />
_Por favor, diga-me seu nome. Diga-me como encontrá-lo.</p>
<p>Enraivecido, deu-me as costas e partiu para o meio da rua pavimentada.  Os passos enlouquecidos tilintavam o som de sapatos femininos contra  paralelepípedos rudes. Espere, espere. Mãos de veludo negro tentando  alcançar metros que não lhe são permitidos. E os cabelos dele voavam, os  braços se remexiam tão rápidos e teimosos quanto as pernas,  sincronizados. Desfez-se na descida íngreme e fez-se pôr do sol. As ruas  se tingiram em cores quentes. Eu voltei para a casa e decidi não me  alimentar. Trancada no quarto, os socos contra a porta, as agressões  contra a maçaneta e os berros ameaçadores repetiram até o sono vir sem  sonho, mas afogado em lágrimas e rosto quentes.</p>
<p>Vivi dali em  diante uma greve de fome, um regime de pesares que a tristeza me impôs  violentamente. Procurei guardar todas as recordações no fundo de um baú  de brinquedos velhos e no meu inconsciente menos acessível. Traiçoeiros,  os sonhos me traziam à tona a sensação mas não a face que as provocava.  Esqueci-me, em bons anos, a aflição que me aterrorizava a adolescência.  Desfiz-me numa boemia longe da casa dos pais, acabei-me em braços  desconhecidos e vi-me em camas frias e quartos estrangeiros. Meus  cabelos encresparam-se com cosméticos e visitas a salões, meus olhos  ganharam a malícia de sobrancelhas bem tiradas e os lábios, bem providos  de réplica e tons avermelhados, proferiam as mais insanas crueldades  que uma aprendiz de mulher forte deveria proferir.</p>
<p>Meus cigarros  acabavam duas vezes ao dia. Meu quarto era um cesto de lixo escuro,  perturbado pelas luzes horizontais que invadiam o cômodo pelas frestas  da persiana. Deitava-me sobre a escrivaninha e perdia-me nos trabalhos  da universidade. A máquina de escrever me provocava dores de cabeça  regadas a vinho barato e comida insalubre. Perdi dez quilos em minha  empreitada por escrever a maior das reportagens, a mais estrondosa das  notícias, o mais inexplicável das Américas, a descoberta das  descobertas.</p>
<p>Viajando de carro com uma companheira de ofício,  passei pela cidade onde cresci. Sem querer, vi de relance o perfil  entristecido e amargurado de minha mãe, mas isso não me convenceu a  parar o carro. Descemos mais alguns estados e chegamos a um dos extremos  dos Estados Unidos, próximo à fronteira com o México. Descobrimos uma  colônia perdida no deserto, num cenário aridamente paradisíaco. A areia  brilhava branca em contraponto com o chão avermelhado e duro demonstrado  nas estradas. Recobertos em tecidos leves e claros, os fantasmas louros  vieram até nós e nos ofereceram água, conforto e canções.</p>
<p>Em  tendas ciganas, escondiam-se seres de longas madeixas, pele lisa e olhos  claros. Contaram-nos seus segredos que foram imortalizados em folhas  brancas, papel carbono e teclas de ferro. Voltamos à capital e  apresentamos nosso trabalho. Fomos apreciadas, agradecidas e agraciadas  com manchetes que rodaram o país inteiro e que ecoaram em rádios.  Preenchidas de glória e remuneradas, desfizemos nossos laços puramente  interesseiros e partimos para sentidos opostos.</p>
<p>Num café,  escondia-me em roupas maduras de uma mulher que já quase alcançava os  trinta anos. Eis que entre um gole e outro, minha franja desfaz o foco  de meus olhos e eu me perco numa figura que, de longe, disparara-me o  coração como numa descarga elétrica. Levantei-me apressada, sem jeito, e  derrubei uma cadeira. Era eu quem fugia, sem sair do lugar, perdendo-me  nas entranhas preenchidas de impurezas que, de repente, pareciam ser  julgadas por olhos não enxergados por minhas vistas.</p>
<p>Respirando  alto e forte, o choro não teimou em se desenvolver. Caiu quente, negro,  misturou-se às marcas de expressão. Não pude me resolver. A porta de  vidro bateu rápida, os sinos gritaram de susto e eu, em disparada,  deixei o chapéu cair e se esquecer na calçada. As mãos de veludo negro  teimaram em alcançar metros que iam se desfazendo. Próximos, muito  próximos. Juntos, unidos num impacto que eu causei. Como uma cobra dando  bote, meus braços insistiram em o envolver. Era ele, eu sabia, de  cabelos curtos e estatura avançada, maxilares prostrados num rosto ainda  delicado, mas amargurado, pelo tempo e pelas coisas que fez.</p>
<p>_Andreas,  Andreas Vålnad. – murmurei entre suspiros roucos.</p>
<p>Ele me  empurrou para longe, eu quase perdi o equilíbrio, enroscando os saltos  nos paralelepípedos. Seus olhos apertados pela virilidade continuaram a  me desprezar, a me contradizer. Era hoje um grande homem, de grandes  idéias dispersadas em pseudônimos que quis inventar. Numa máscara de  frieza grossa e grave demais, seus pés foram recuando um a um, para meu  desespero. Rascunhei dizer “não”, mas sua expressão era forte e  imponente demais para me permitir. Foi-se então, afastando, sem eu  conseguir me mover. Foi-se então, embora, jurando jamais me rever.  Acenou com a cabeça, negativamente. Deu-me as costas largas e os ombros  firmes, desceu a rua íngreme e prometeu perdão se eu, um dia, fosse lhe  esquecer. Andreas, Andreas Vålnad. Era sábio porque sabia o que dizer;  era nobre porque me sabia ver e bem o dominava a noção de que eu nunca,  nunca mais, iria dele e seu nome proibido me desfazer.</p>
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		<title>Uma tal coisa</title>
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		<pubDate>Thu, 04 Feb 2010 02:30:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lidia Zuin</dc:creator>
				<category><![CDATA[not-cyberpunk]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p>De tanto andar, cansei. Sentei-me na sarjeta, onde deita o bêbado: um pano torcido expelindo sujeira pela bocarra. De pés no chão, as pernas abrem inconscientemente – nunca me comportei muito bem. As calças sobem até acima do meu umbigo e seguram uma barriga cheia de nada. São pretas, de couro, têm as barras escondidas por coturno militar, ponta metálica. Boa para chutar, ruim para os tornozelos.</p>
<p>Não tinha o costume de fumar, porque nas subidas, a respiração me falha mais que com defeito de fabricação (a asma). Mas que se foda. O maço está com a primeira fileira acabada e eu inauguro a última. Um brinde ao filtro amarelo. Fico vendo o reflexo dos prédios nas poças d’água, estrategicamente espalhadas pelo asfalto gasto. Estou longe delas, caso algum filho da puta passar em alta velocidade. A fumaça sobe sob minha cabeça cheia de cabelo preto e oleoso. Coço a franja, tentando eliminar os fios que corrompem minha vista cansada.</p>
<p>As luvas cobrem as manchas em meus dedos de unhas roídas. E esquentam, apesar de não estar muito frio. Ultimamente só tem chovido, frio mesmo… tem tempo que não faz. Risada esquizofrênica. Sozinha, senão pelo indigente e um cara que passa do outro lado da rua, pareço rir de nada. Devia vir pronto a percepção de que nunca ninguém está pensando em nada: até mesmo os loucos ou aqueles que sofrem de amnésia, Alzheimer, foda-se a injúria, pensam em algo. Pensam em como não conseguem pensar, talvez, mas pensam. Eu tenho uma puta linha de raciocínio.</p>
<p>Organizada quase numa linha histórica, uma fita métrica de medidas prolongadas até uma anotação mental, num fundo com cor tipo de post-it. “O começo”. Ali, eu não sabia bem do que se tratava. Fingia que não tinha a ver comigo e que não queria mesmo ter. Nem a coisa, nem eu. Desdenhava, apostava e cumpro até hoje porque sou mais orgulhosa que deposito lealdade em palavras. Não comento sobre essas coisas, não as entendo, jamais as entenderei. Porra, acho que ninguém nunca entendeu, sabe? Estamos ai no mundo há tanto tempo e ninguém soube dizer tipo, isto é igual a isto, matemática pura, sabe? Não sabem. Só inventam mais um bando de palavras pra desdobrar uma palavra de merda.</p>
<p>Amasso o cigarro no chão. Dou uma pausa no vício recém-adquirido, este que está a me arranhar a garganta, para voltar à noosfera. Pigarro. Bem, depois do começo, vem a “Tentativas”. Essa palavra não te lembra, em primeiro lugar, caso seja tão pessimista quanto eu, sucesso. Tentativa, ainda mais no plural, rege falhas. Muitas delas. E como. Pois é, tentei entender da coisa e no fim, quis rejeitá-la ainda mais. Ah, fiquei puta. Mandei à merda, fiz de conta que não era comigo, mas ainda lamentava pelos cantos que eu, a mais infeliz criatura, não conseguia saber que coisa era aquela.</p>
<p>Um gole dessa merda verde que comprei por cinco reais. Arde, mas alivia o gosto rançoso da boca e da alma, como se fosse creme dental. Os dentes se encontraram num sorriso de ardência. Vamos à próxima etapa, “Retrospectiva”. Ainda que essa minha cara de quem tá querendo chutar a sua bunda seja evidente, tenho detrás dessa regata branca um bagulho que insistem dizer que é onde ficao sentimento… ou a memória dele. Bate pra caralho, agora. Estou me sufocando com um próximo cigarro. Esse isqueiro zuado promete quebrar logo.</p>
<p>Nessa parte, vejo que dei uma relevada. Quis voltar a ser a Pequena Eu, aquela que ainda sorria sem compromisso e se divertia ao rodar em torno de si mesma, a barra do vestido erguendo-se. Lembro dos grãos de areia e das pás, dos baldinhos e… de como competíamos quem vendia mais areia numa praia. Foi este o tempo em que eu mais cheguei perto da definição dessa maldita coisa. Ela tocou no meu ombro, pelas costas, e quando eu me virei: sumiu! O toque foi contínuo, alguns segundos assim, suficientes para marcar anos… Quando procurei ver seu semblante, nem pegadas eu achei. Mas o contato foi suficiente para eu permanecer buscando.</p>
<p>Perdão. Interrompo um pouco esse depoimento por conta de um ataque de tosse. Odeio como isso rasga ainda mais a minha garganta. Muito bem, estamos vivos ainda, não estamos? Estamos acabando, não tenha pressa. Coço minha nuca antes de anunciar que esta parte se chama “Cansaço”. É, dá vontade de me chutar por causa disso. Depois de ser encontrada pela coisa, de repente, canso-me dela. Quero que vá para a puta que a pariu. Já passou da hora de se viver sem essa coisa me alucinando, perturbando, prendendo-me numa obstinação doentia. Numa dedicação sem premiação. Disse adeus à coisa sem ela me escutar, mas quando temi ouvir o eco, achando que era sua resposta, pedi desculpas e jurei nunca mais a abandonar.</p>
<p>E aqui chegamos à parte final: “Percepção”. Eu notei, enxerguei, procurei, achei, percebi. Ah, inferno… Coço meus olhos com a palma das mãos, espalho a maquiagem preta por onde as lágrimas já haviam umedecido. Acabamos de entrar na merda. Penúltimo cigarro, se me permite. Nessa hora eu ranjo o dente, preencho o tambor do meu revólver com apenas uma bala, que é pra não ter mais volta. Ele tá guardadinho aqui na minha cintura, travado como bem deve estar, até a hora certa.</p>
<p>Veja bem, eu finalmente entendi o que era a coisa. Eu entendi, mas não sei explicar. Assim como demais almas do passado, eu alcancei a coisa, mas não a segurei suficientemente bem para poder apresentá-la aos outros. Eu pedi a ela: “Coisa, coisinha querida, por favor, venha comigo?”. Não, ela me abandonou. De repente, houve interesse mútuo, por mútuo medo de perda de interesse. Abraçamo-nos como dois enamorados à beira de um penhasco. Mas caímos, ambos. Ela me perdeu, eu a perdi. Ela me traiu em pensamento. Quis incitar a curiosidade de outro, quis perturbar outro espírito até então em paz.</p>
<p>Eu quebrei o silêncio, eu desci ao inferno e acertei um tiro na testa do capeta. Eu subi ao Éden e empalei a santa trindade. Que merda de coisa vai poder me deter agora, hm? Nenhuma, senhor. O cigarro acabou. O último gole foi este. Ninguém vai me deter, até a morte tem medo de mim. Carrego em minha orelha direita um ahkn que roubei dos egípcios. Dou risada. Sou uma puta falsa do caralho. Estou até agora contando uma porrada de mentira pra vocês, não é? Instigando a curiosidade sobre essa tal de coisa&#8230; A coisa é a própria merda, o esterco de porco que nem adubar a terra consegue mais!</p>
<p>Não sei nem como pedir desculpas por essa perda de tempo. Fumaria este último cigarro, mas meu isqueiro quebrou. Deixei copo de plástico, maço e isqueiro ali no canto da rua, como uma oferenda ou como uma macumba mesmo. Levantei com algum rangido e estalo nas costas, mas estou em pé. Estou em pé. Abraço os braços e acaricio o vazio cheio de sereno que se prostra frente a mim. Intoxiquei-me para desintoxicar-me dessa desgraça de querer saber que coisa é. Esses poetas eram tudo vagabundo, frustrado, pior que eu&#8230;</p>
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		<title>Autônomos &#8211; parte I</title>
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		<pubDate>Wed, 06 Jan 2010 05:54:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lidia Zuin</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Fumava um cigarro tranqüilo, enfiada numa rodinha punk que brincava com um filhote de labrador. A grama do parque brilhava com a luz forte do sol. Meio dia e tantos minutos. Viu no relógio da catedral. Ria das besteiras que os amigos de cabelos compridos e arrepiados diziam. Tinham a criatividade trazida pelo álcool já acabado. A prova eram as várias garrafas esverdeadas de cerveja que estavam jogadas no chão, vazias. Ela não havia bebido o suficiente, nem conseguia se alegrar. Tinha poucos trocados no bolso, assim como os demais.</p>
<p>Tendo se perdido no assunto, sua atenção tornou-se dispersa. Passou a encarar as outras pessoas que passavam pelo parque ou que se acomodavam nele. Os prédios em volta, um contraponto. Contraía os olhos enquanto tragava pela última vez o cigarro já consumido. Via vários homens de terno e gravata, provavelmente morrendo de calor. Aquilo até tinha certo motivo para lhe fazer rir, mas debaixo das lentes pretas dos Wayfarer, mantinha-se indiferente. O cigarro foi jogado no chão, pisoteado na certeza de não mais queimar. Queria dar o fora dali.</p>
<p>_Ei, Charlise. Vou vazar.</p>
<p>_Ué, vai por quê?</p>
<p>_Ah tou de cu virado. Encontro vocês no pub, à noite.</p>
<p>Acenou para os demais, gritando um adeus que foi devolvido com o mesmo entusiasmo se todos estivessem partindo também. Não se incomodou com isso. Meteu as mãos no bolso das calças de sarja preta e subiu no concreto da calçada. Subiu num ônibus qualquer assim que o primeiro chegou. Conseguiu achar um assento. Aproveitou para esticar as pernas, apoiando uma de cada vez no apoio que separava o cobrador dos passageiros. O homem de cabelos raspados olhou-a com desdém. Ela não percebeu, perdendo-se nos rastros brilhantes de folhas de árvore passando rápido pela janela. Cochilou por uns dez minutos, até uma mulher sentar-se ao seu lado.</p>
<p>Desceu no centro comercial da cidade. Muitos prédios, mais que aqueles que circundavam o parque. Esses eram também bem mais altos, espelhados e com grandes logotipos sumindo e reaparecendo pelas múltiplas janelas. Coçou o pescoço, sentindo-o ainda úmido pelo calor, mas agora resfriado pelo vento que invadia o ônibus. Não estava afim de ir ali, mas havia chegado de alguma forma que só seu inconsciente saberia demonstrar. Bocejou numa controversa despreocupação. Atravessou a rua quase sem olhar para o trânsito e, de repente, estava debruçada sobre o mármore do balcão de entrada.</p>
<p>_Ele ‘tá ocupado?</p>
<p>_Vou ligar.</p>
<p>A ruiva, muito bem arrumada, não gostava muito de olhar para a filha do chefe. Pegava logo o telefone e tratava de contatar o grande homem da empresa de peças robóticas. Torcia, internamente, para que ele estivesse desocupado e não forçasse a pentelha a ficar sentada no sofá do hall, encarando todos que passavam por ali.</p>
<p>_Pode subir.</p>
<p>No elevador, encontrou mais dois homens com o dobro de sua idade. Estavam paralisados, numa posição fixa e imitada. Perguntou a si mesma se aquilo eram pessoas ou robôs superdesenvolvidos recentemente criados. O elevador se abriu, a voz sintética indicou vigésimo oitavo andar.</p>
<p>A sala de seu pai era gigantesca: era quase um ritual de aproximação. Um corredor vermelho e estreito, forrado de quadros eletrônicos que a cada dez segundos transformavam-se em vídeos de quinze, vinte segundos. Propagandas da empresa. Os violinos da nova música erudita soavam tão velozes que às vezes ela achava que a melodia era feita normalmente e depois tinha a velocidade aumentada num editor de som qualquer. Passou a não achar mais graça depois da segunda visita.</p>
<p>_Oi, filha. – formal como deveria ser com um cliente, com um empregado ou com um desconhecido.</p>
<p>Ela não respondeu.</p>
<p>_Que te traz aqui? – o homem, nada parecido com ela, perdia-se na enorme placa de vidro que servia como janela e como película invisível que substituía a parede às suas costas. Tinha cabelos grisalhos e as rugas corrigidas com cirurgia plástica. Seus dentes eram brancos como propaganda de creme dental e seu sorriso era tão largo quanto de um palhaço assassino.</p>
<p>_Não sei. – ela se perdia olhando para a cidade, em panorama, atrás daquela cabecinha fisicamente pequena e metaforicamente inchada. Sentou-se numa das duas cadeiras postas à frente da grande mesa do “grande homem”.</p>
<p>Ele não respondeu.</p>
<p>_É sério. Eu não sei. Só vim aqui. – entrecruzou os dedos da mão, postos sobre a barriga esticada numa posição torta.</p>
<p>_Saudades? – ele arriscou um sorriso conforme as sobrancelhas subiram e confirmaram que ele não havia corrigido a testa ainda.</p>
<p>_Acho que não. – revirou os olhos pretos pelas órbitas grandes e circundadas por maquiagem preta e branca. A garota pegou um dos folhetos que repousavam sobre a mesa de vidro e metal do pai. Deu uma olhada pouco interessada, até sua face se transformar ao achar um modelo fabricado ali – Que seria esse GTY-9907?</p>
<p>_Um andróide encomendado por um cliente. Diretor de cinema. – era comum a indústria cinematográfica usar andróides para filmes pornôs.</p>
<p>_Produtor de putaria. – ela riu de uma piada que só teria graça entre ela e seus amigos.</p>
<p>_Que seja&#8230; – o pai parecia entediado, agora passando os dedos pela face muito bem depilada por laser e bronzeada artificialmente.</p>
<p>_Pode fazer um para mim?</p>
<p>_Para quê? – ele franziu o cenho, parecendo irritado demais para uma reação tão repentina.</p>
<p>_Oras, todo mundo tem um robô e tal&#8230; – ela tirou a franja do olho, encarando o pai com a expressão mais eloqüente que conseguia forjar – Eu gostei da aparência dele. Mas prometo que não vou usar como namorado ou qualquer coisa do tipo. Eu sei que meninas da minha idade têm feito isso e afins. – falava com verdadeiro desgosto, como se tivesse acabado de mastigar a pior comida do mundo.</p>
<p>O homem refletiu em silêncio, sem tirar os olhos da filha. Balançou a cabeça, sem precisar complementar com qualquer negação.</p>
<p>_Puta que pariu, hein. Vou ter que trabalhar pra comprar um troço que meu pai fabrica?</p>
<p>Ele não respondeu.</p>
<p>_Caralho.</p>
<p>Levantou-se da cadeira com tanta violência que o assento foi para trás. Saiu da sala batendo os coturnos contra o carpete vermelho. Desceu o elevador morrendo de ódio da câmera e do andróide de cobertura metálica que passou a acompanhá-la a partir do décimo nono andar. Olhava para ele, suas feições humanóides, primitivas e baratas demais. Via em sua nuca o exato lócus em que poderia desligá-lo. Um plano.</p>
<p>_Ei, qual é o seu número de série?</p>
<p>_Boa tarde, senhorita. O meu número de série é 988397&#8230; – ela se aproximou como se fosse abraçá-lo e, sem ter os reflexos aprimorados, a máquina não conseguiu se desvencilhar. Foi desligada. A postura manteve-se a mesma, mas os olhos se apagaram. A câmera filmando tudo. Tirou a memória de dentro do andróide e o fez voltar “à vida” logo depois. – Boa tarde, senhorita, posso ajudá-la?</p>
<p>_Não. – ele desceu no quinto andar, ela no térreo. Pegou um ônibus com a grana que lhe restava e voltou para a casa dos pais, onde ainda morava.</p>
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		<title>Lembrancinha</title>
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		<pubDate>Tue, 29 Dec 2009 00:21:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lidia Zuin</dc:creator>
				<category><![CDATA[horror]]></category>
		<category><![CDATA[not-cyberpunk]]></category>

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		<description><![CDATA[Homenagem às festas de final de ano.. mwaha-ha-ha 8D]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Costumava ser comprado com produtos caros e inúteis, mas belos. Costumava afirmar sua obesidade com bons temperos e cheiros. Gostava dos papéis amarrotados entre o sutiã e os seios flácidos das mais velhas e experientes na arte da fé. Faziam um círculo em que os pontos eram dedos que, em outra hora, envolveriam genitálias.</p>
<p>Oravam, cantavam e, acima de tudo, acreditavam. Achavam que por sobre suas cabeças cheias de inveja, vaidade e estupidez pairavam &#8220;anjinhos&#8221;. Mas nas faces&#8230; Ah, as faces&#8230; Em louvor, fechados ficavam os olhos e abertas as bocas cheias de fiapo de carne. Às duas, recolhiam-se e repousavam até o novo dia chegar. E o novo mesmo só estava em &#8220;tudo de novo&#8221;.</p>
<p>Mas hoje vai ser diferente&#8230; Tenho sob as vestes o que querem tanto ver. Sinto fria a minha vontade em repouso. A porta está aberta e eu já sinto cheiro de comida e merda. Um riso. Um abraço e um estrondo: no hall de entrada, cede o corpo da anfitriã. Mais alguns projéteis para tantos projetos.</p>
<p>Um a um: crianças e quarentões. O molho está pronto e está derramado no chão. Falta-me apenas esse retrato infantil pintado à gordura de leitoa. Segura entre os dedinhos inchados de gula uma coxa de frango assada. Um último e exato tiro me restava. Ela chora, encurralada entre minhas pernas e a união de duas paredes. Enquanto ela derrama e engole secreção nasal, eu rio de suas súplicas.</p>
<p>Peço-lhe, com delicadeza, para que me entregue seu vestidinho púrpura cheio de rendas, botões e sangue da mãe. Ela chora mais, mas obedece. Não tenho tesão por aquele corpo esférico e úmido suor pelas dobras de banha. Dei-lhe surras por toda a extensão das costas e lhe soquei a face como se fossem três beijinhos.</p>
<p>Peguei seu presente: uma boneca. Que bonita ela é&#8230; como você NÃO é. De frente para o espelho, ela se descobre avermelhada pelo choro e por meus socos. Desesperada, a precoce vaidosa berra entre lágrimas. Peço-lhe calma e mexo o brinquedo como se fosse ele o falante.</p>
<p>Cala a boca, porra! Pá! Toma Maria, cheia de graça. Agrido seu rostinho até o corpo ir ao chão. Ela se vê só por um olho e descobre dentes a menos e o nariz afundado. Digo que pode ir agora, mas quando ela me dá as costas, atinjo-lhe o crânio.</p>
<p>Noite feliz&#8230; Noite feliz&#8230;</p>
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