Inconsciente
Publicação: 13 de março de 2010
Eu tinha uns 17 anos naquela época. Invariavelmente, saía de casa para comprar algo ou inventava um afazer para poder me distrair fora de quatro paredes. Levava comigo nada senão alguns trocados no bolso do vestido rodado, as sapatilhas pretas e brilhantes, as meias finas cor-de-neve. Cruzava a primeira esquina, do quarteirão frente ao sobrado onde morava. Reparava nos espaços de cimento entre os tijolos das paredes avermelhadas, as janelas de vidro quadriculadas em suportes de madeira escura. O menino negro de mão hasteada, segurando um jornal escandaloso. Nada influenciava meus ouvidos que, adormecidos, pareciam escutar apenas o ronco dos carros e os estalidos do bonde.
Sabia quem era ele, ali. Num quebra-cabeça indumentário, o garoto pouco mais novo que eu, misturava calças com bermudas, casaco com blusa e deixava os cabelos loiros, muito finos, cresceram até a altura do quadril. Era uma criança tão lívida quanto o inverno, tinha os maxilares afinados demais para um garoto, mas os olhos verdes e agressivos guardavam uma virilidade a se desenvolver. Pagava uma moeda para o senhor de boina e bigode, munia-se de uma espingarda falsa e dispunha-se de três tiros de chumbinho para derrubar latas de comida enfileiradas numa estante.
Conhecia aquela pouca estatura, as botinas marrons e o nariz pequeno, empinado. Aproximava-me silenciosa, recoberta do pudor que uma aprendiz de dama devia se recobrir. Escondia os cílios entre as luvas de renda branca, fingia não espiar de canto aquele garoto, menor que eu, erguer-se, em espírito, maior que um rei. Um tiro, nenhuma lata. Outro tiro, nada. No terceiro, ele me olhou por sobre o ombro, descobrindo-me espectadora de sua brincadeira. Sem reação, voltou-se para as latas e, enfim, uma acertou. Deu de ombros, afinal, o prêmio só viria se todos os tiros não fossem em vão.
_Parece fácil, não é? – ele me perguntou, numa naturalidade fraterna. Reconheci, assim, que sua face estava encardida de cinzas e fuligem. Sabendo que meus olhos bem se abriram, negros e brilhantes, diante da surpresa, ele riu e complementou. – Mas não é.
Encantava-me a voz pouco grossa de uma pré-adolescência e maturação não avançadas. De repente, estávamos os dois andando enfileirados, lado a lado, como amigos que passam tardes entretidos com bolas de gude e carrinhos de brinquedo.
_Como se chama? – fez-me esta questão.
_Laura Stuart. – respondi prontamente.
Não havia me atrevido a perguntar seu nome e assim pareceu bem ao meu companheiro de caminhada. Eu nem mais sabia qual destino seguíamos, mas ele logo saltou da calçada e pôs-se em disparada sem nada me dizer. Era pelo menos a quarta vez que nos encontrávamos e ele insistia em não me reconhecer. Fugia, desaparecia e, depois, só ele me achava, quando bem entendesse.
De volta para casa, de mãos abanando, mamãe vasculhava o que havia me puxado para fora e que razão me recuperava para dentro. Respondia-lhe com súplicas e desculpas que eram bem aceitas, de acordo com os costumes da submissão mãe-filha. Mais tarde nasceria a raiva paterna diante de minha “subversão”.
Em meu quarto, rascunhava mapas de pensamento, tentava ligar palavras num sentido lógico que repercutissem no detalhamento de meu trajeto, de meu encontro, do estranho. Desenhos tortos, mal feitos e desleixados não conseguiam alcançar a sublime delicadeza de um anônimo de nome, temperamento e origem. Não reforçava o lápis contra o papel almaço, construía-o fantasmagórico. Arrancava a página e, amassada, jogava-a no cesto de lixo, de forma que ali pudesse sepultar uma imagem que queria manter só em minha mente.
Depois do jantar e das lições de moral adornadas por um bigode tão rústico quanto as idéias, escondia-me debaixo das cobertas e forçava os olhos até as pálpebras brilharem e eu conseguir me desfazer em sonho. Formava-o em cores pastéis, num quadro rococó preenchido de luz, delicadeza e animais domésticos que conosco brincavam. Acordava, no dia seguinte, mais feliz e ansiosa pela surpresa do desconhecido.
Andava pelas ruas escondendo-me por detrás dos cabelos castanhos. Pedia para que de cada esquina saltasse um rosto pálido e sorridente para interromper meu tedioso trajeto. A escola, as carteiras escuras de madeira, as folhas de matéria substituídas por poemas. O rádio no bar da avenida, as canções belas reproduzidas. Nada. Depois de ter-me preenchido e esvaziado o pulmão duas ou três vezes prolongadas, desistia da empreitada por achar o louro garoto que, após dias sem vê-lo, parecia fazer parte apenas de minha mente.
Uma rua a percorrer, uma esquina a dobrar e a porta de casa, vítrea, reluzia o sol poente e meu reflexo entristecido. Um berro desvairado, passos rápidos como os de um perseguidor e fios áureos brilham num único raio de sol desfeito ao piscar de olhos. Abracei-o como um animal faminto agarra a presa. Não quis soltá-lo, não quis me desfazer das batidas fortes e enlouquecidas que meu coração reproduzia. Sem entender, ele resmungava, como um bebê teimoso que não aprecia a bajulação. Afastado de mim, olhou-me com rancor e me perguntou o que eu queria. Brilhantes, minhas íris negras reservavam lágrimas de desespero e de obsessão.
_Por favor, diga-me seu nome. Diga-me como encontrá-lo.
Enraivecido, deu-me as costas e partiu para o meio da rua pavimentada. Os passos enlouquecidos tilintavam o som de sapatos femininos contra paralelepípedos rudes. Espere, espere. Mãos de veludo negro tentando alcançar metros que não lhe são permitidos. E os cabelos dele voavam, os braços se remexiam tão rápidos e teimosos quanto as pernas, sincronizados. Desfez-se na descida íngreme e fez-se pôr do sol. As ruas se tingiram em cores quentes. Eu voltei para a casa e decidi não me alimentar. Trancada no quarto, os socos contra a porta, as agressões contra a maçaneta e os berros ameaçadores repetiram até o sono vir sem sonho, mas afogado em lágrimas e rosto quentes.
Vivi dali em diante uma greve de fome, um regime de pesares que a tristeza me impôs violentamente. Procurei guardar todas as recordações no fundo de um baú de brinquedos velhos e no meu inconsciente menos acessível. Traiçoeiros, os sonhos me traziam à tona a sensação mas não a face que as provocava. Esqueci-me, em bons anos, a aflição que me aterrorizava a adolescência. Desfiz-me numa boemia longe da casa dos pais, acabei-me em braços desconhecidos e vi-me em camas frias e quartos estrangeiros. Meus cabelos encresparam-se com cosméticos e visitas a salões, meus olhos ganharam a malícia de sobrancelhas bem tiradas e os lábios, bem providos de réplica e tons avermelhados, proferiam as mais insanas crueldades que uma aprendiz de mulher forte deveria proferir.
Meus cigarros acabavam duas vezes ao dia. Meu quarto era um cesto de lixo escuro, perturbado pelas luzes horizontais que invadiam o cômodo pelas frestas da persiana. Deitava-me sobre a escrivaninha e perdia-me nos trabalhos da universidade. A máquina de escrever me provocava dores de cabeça regadas a vinho barato e comida insalubre. Perdi dez quilos em minha empreitada por escrever a maior das reportagens, a mais estrondosa das notícias, o mais inexplicável das Américas, a descoberta das descobertas.
Viajando de carro com uma companheira de ofício, passei pela cidade onde cresci. Sem querer, vi de relance o perfil entristecido e amargurado de minha mãe, mas isso não me convenceu a parar o carro. Descemos mais alguns estados e chegamos a um dos extremos dos Estados Unidos, próximo à fronteira com o México. Descobrimos uma colônia perdida no deserto, num cenário aridamente paradisíaco. A areia brilhava branca em contraponto com o chão avermelhado e duro demonstrado nas estradas. Recobertos em tecidos leves e claros, os fantasmas louros vieram até nós e nos ofereceram água, conforto e canções.
Em tendas ciganas, escondiam-se seres de longas madeixas, pele lisa e olhos claros. Contaram-nos seus segredos que foram imortalizados em folhas brancas, papel carbono e teclas de ferro. Voltamos à capital e apresentamos nosso trabalho. Fomos apreciadas, agradecidas e agraciadas com manchetes que rodaram o país inteiro e que ecoaram em rádios. Preenchidas de glória e remuneradas, desfizemos nossos laços puramente interesseiros e partimos para sentidos opostos.
Num café, escondia-me em roupas maduras de uma mulher que já quase alcançava os trinta anos. Eis que entre um gole e outro, minha franja desfaz o foco de meus olhos e eu me perco numa figura que, de longe, disparara-me o coração como numa descarga elétrica. Levantei-me apressada, sem jeito, e derrubei uma cadeira. Era eu quem fugia, sem sair do lugar, perdendo-me nas entranhas preenchidas de impurezas que, de repente, pareciam ser julgadas por olhos não enxergados por minhas vistas.
Respirando alto e forte, o choro não teimou em se desenvolver. Caiu quente, negro, misturou-se às marcas de expressão. Não pude me resolver. A porta de vidro bateu rápida, os sinos gritaram de susto e eu, em disparada, deixei o chapéu cair e se esquecer na calçada. As mãos de veludo negro teimaram em alcançar metros que iam se desfazendo. Próximos, muito próximos. Juntos, unidos num impacto que eu causei. Como uma cobra dando bote, meus braços insistiram em o envolver. Era ele, eu sabia, de cabelos curtos e estatura avançada, maxilares prostrados num rosto ainda delicado, mas amargurado, pelo tempo e pelas coisas que fez.
_Andreas, Andreas Vålnad. – murmurei entre suspiros roucos.
Ele me empurrou para longe, eu quase perdi o equilíbrio, enroscando os saltos nos paralelepípedos. Seus olhos apertados pela virilidade continuaram a me desprezar, a me contradizer. Era hoje um grande homem, de grandes idéias dispersadas em pseudônimos que quis inventar. Numa máscara de frieza grossa e grave demais, seus pés foram recuando um a um, para meu desespero. Rascunhei dizer “não”, mas sua expressão era forte e imponente demais para me permitir. Foi-se então, afastando, sem eu conseguir me mover. Foi-se então, embora, jurando jamais me rever. Acenou com a cabeça, negativamente. Deu-me as costas largas e os ombros firmes, desceu a rua íngreme e prometeu perdão se eu, um dia, fosse lhe esquecer. Andreas, Andreas Vålnad. Era sábio porque sabia o que dizer; era nobre porque me sabia ver e bem o dominava a noção de que eu nunca, nunca mais, iria dele e seu nome proibido me desfazer.
Muito bom Lídia. Por mais confuso que seja o fluxo, suas descrições estão mais vigorosas a cada dia e nos levam com segurança através dele…