Sanitário

Publicação: 24 de dezembro de 2009

Estava sentada lá, em paz, com seu cigarro queimando sem mesmo o ter tragado. As cinzas caíam como a gravidade pedia: espalhavam-se sobre o braço do sofá de couro vermelho. Uma garota sujou a bunda quando sentou ali, empurrada por um rapaz. Nessa hora, já tinha o filtro de volta à boca. Sentiu na boca seu gosto queimado.

Jogou o resto fora. No chão, o cigarro colou-se à grossa camada grudenta de bebida derramada. Jogou a cabeça para trás. No encosto do sofá, vários buraquinhos feitos pela brasa dos fumantes. Coçou a cabeça, achando que entre os cabelos azuis e oleosos havia, de novo, piolhos ou qualquer praga vinda do esgoto. Resmungou, perdendo a força nos braços. Jogou-se, de pernas abertas, pelo estofado rubro.

Sobre a cabeça, fragmentos de luz refletidos em espelhos colados à parede. Lasers. Os sons graves e baixos fazendo tudo tremer. Fechou os olhos, comprimindo-os tão forte que pensou que os faria lacrimejar. Seu grito foram só lábios se movendo no escuro de música alta demais. Seus tímpanos tremiam como as caixas de som.

Pelo menos três ou quatro pessoas sentaram do seu lado. Duas puxaram conversa. Uma ofereceu cigarro: o que ela estava fumando. A outra ela não tinha certeza do que havia feito. Sentiu, formando na garganta, um enorme catarro. Preferiu engoli-lo que se erguer e cuspir. Abriu os olhos assim que uma lágrima caiu, sem nenhum sentimento senão biológico. Os sons de alerta voltavam a ecoar em seu ouvido, mais altos que os efeitos da música eletrônica – pode até ser que fizessem parte da canção, mas eram por demais parecidos com o que costumava ouvir, diante do computador.

Sabia que estava de minissaia, mas não fazia questão de fechar as pernas magras e flácidas, brancas demais para terem um dia conhecido a luz do sol. As botas de vinil preto subiam retorcidas até a parte média das coxas. Ela desceu o queixo para o lado, assistindo aos ossos da face extremamente expostos pela anorexia. Fechou os olhos na esperança de que quando os abrisse, o espelho não estivesse mais ali ou ela não fosse mais aquilo. Abriu-os assim que se pôs em pé, de frente para a pista de dança.

Algumas mesas baixas, feitas de vidro e alumínio. Cadeiras aparentemente confortáveis. Mulheres misturadas a homens, transexuais e ciborgues. Não queria sair dali, do canto em que se sentia invisível mesmo que as spotlights brancas por vezes a iluminassem durante dois ou três segundos. Um pouco que é demais para quem tem os olhos afundados por olheiras nojentas e maquiagem preta borrada. Pressionou as têmporas com os dedos indicador e médio de cada mão, depois as jogou à altura do quadril, balançando-as até perderem o impulso. Balançou a cabeça, rodando o pescoço. Sentia-o tenso, uma leve torcicolo que pegava mais para o lado direito, em contínuo com o ombro. Massageou a região com pouca força e vontade. Tentando se equilibrar sobre os saltos muito finos, resolveu sair dali. Tirou da região entre a calcinha e a minissaia de vinil preto o cartão magnético que lhe permitia o consumo ali dentro. A fila estava grande e ela tinha vontade de vomitar. Correu para o banheiro, quase indo ao chão por conta do piso liso, úmido de mijo.

Um isqueiro em formato de maçarico, uma colher, um saco plástico e uma garota loira de lábios muito vermelhos e machucados. Provavelmente ela havia feito uma cirurgia há pouco tempo mas não se permitiu repousar após a sessão de bisturi e silicone. Por um tempo, hesitou. Sentia a yakisoba que havia comido há algumas horas voltar em forma de pasta na garganta. A língua se tornou rançosa e o mau hálito se dissolveu ao fedor externo. Mas havia ali uma porção de heroína a ser derretida. A agulha estava jogada dentro da pia recentemente entupida, boiando na água ainda limpa.

_ Filha da puta – murmurou, aproximando-se em passos firmes e pesados. Tomou a garota pelo braço e meteu-lhe um tapa na cara, tomando cuidado para não agredi-la assim que o nó no saco plástico fosse desfeito por suas unhas verdes.

A loira platinada respondia ao ataque com gritos sintetizados na garganta. Um aparelho provavelmente posto ali após um câncer de garganta ter atingido a ferrada. Imaginou então que além da boca, a garota – provavelmente uma velha – estava toda reformada. Filha da puta cheia da grana, isso sim. Segurou-se sobre os quinze centímetros de salto e usou toda a força que mantinha em seus braços quebradiços. Tentou cobrir sua boca, passando por suas costas. Pela cintura, agarrava-a de maneira que mantivesse o corpo junto ao seu. Os braços da mulher reformada se debatiam, voltando para trás com uma dificuldade de alguém que já tinha repuxado demais a pele na região das axilas. Puxava os cabelos azuis da outra com um ódio visto apenas em seus olhos cirurgicamente azuis. Jogava seu corpo para frente, achando que daquela forma, poderia se livrar da garota alguns centímetros mais alta que ela.

A mais nova começou a rir, percebendo que os gritos da loira passavam do desespero e do ódio de ser surpreendida à dor que sentia por ter seus lábios recém operados pressionados pela mão que tentava lhe calar.

_Pára de gritar, ô cadela. Você é rica pra caralho e não quer nem compartilhar um pico?

As unhas verdes e compridas remexiam-se em dedos compridos demais para terem vindos com o pacote original. Largou a boca dela para escutar um bando de merdas egoístas.

_Então vai tomar no cu e faz isso de supositório, biscate. – empurrou sua cabeça para frente, querendo muito ter força para começar a martelar o crânio da velha reformada contra a pia de alumínio. As outras meninas estavam tão fodidas de maconha que achavam engraçado. Ela resolveu entrar numa das cabines e finalmente vomitar.

O vaso sanitário já não possuía mais nenhuma cobertura (se é que se deram ao trabalho de comprá-la). O cesto de lixo estava preenchido de vômito, merda e qualquer outra coisa que ela nem queria mais analisar. Coçou o nariz, sentindo a coluna se retorcer e os pêlos do braço eriçarem de aflição. Olhou para dentro do vaso. Viu algo avermelhado entre a merda. Piscou bem os olhos, achando que de novo eles tivessem infeccionados por causa da cirurgia de mudança de cor. Tomando foco no que estava ali, percebeu que era um feto recém abortado. Gritou. Virou-se de costas e vomitou sobre os pés. Abriu a porta e passou reto pela loira, que já tinha uma tripa enrolada no braço. Vomitou pelo caminho, mas conseguiu sair dali de boca fechada. De volta ao misto de música, fumaça e luzes, derrubou a bebida de alguém e finalmente chegou ao balcão de pagamento, agora livre de fila.

Deixou lá o cartão magnético vazio. A entrada era gratuita. Mulheres são bem-vindas nesses lugares ferrados e cheios de homens em busca de vaginas gratuitas. Lá fora, encontrou um grupo vestido de preto, cabelos muito compridos e lisos. Todos. Jurava que todos tinham a mesma face também. Tendo dependurados no pescoço crucifixos invertidos, aquelas quatro pessoas bebiam um vinho que a sua cabeça ainda atormentada pela visão do feto entre a merda, pensou que aquilo fosse sangue. Soluçou alto demais e fez o quarteto olhá-la. Usavam máscaras de plástico, todas lívidas e de lábios fechados. Sorrisos. Ela berrou novamente e se jogou contra a porta de metal que fechava o bar ao lado. Pichado por refugiados do gueto, o portão estremeceu com a chegada das costas magras. Esfregou-as contra a superfície áspera e finalmente chegou ao chão, de joelhos unidos e palmas frente à face. Chorava ruidosamente, expelindo quem quer que se acomodava ali.


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