Triz
Publicação: 23 de julho de 2010
Rola pra cá, pra lá. Ajusta um pouco mais pra direita, pra esquerda. Agora mais fundo, depois volta e sai. Volta mais um pouquinho. E sai. As digitais do dedão e do indicador roçam-se conforme a sujeira de nariz marrom esverdeada toma forma de bolinha. Com um peteleco, ela voa e desaparece na miopia do garoto de bochechas fartas e marcas faciais, como cicatrizes de catapora. Ele coça a axila direita, tentando endireitar a camiseta justa ao corpo perfeitamente esférico. Então sai andando, com suas perninhas miúdas e ligeiras.
Encostadas na cúpula de vidro que protege a fenda do metrô, duas rogues fumam cigarros eletrônicos com fumaça vermelha. Os espartilhos afinam suas cinturas e elevam seus seios decorados por tatuagens de coração flamejante, vestígios do verão passado, quando a banda japonesa Juno no Densetsu relançou a moda hipster – elas trocaram as cores vivas por manchas escuras. Seus cabelos pretos e compridos, muito lisos e mais brilhantes que peruca de plástico, mal se moviam com a ventania de uma tempestade próxima. O ar úmido e pesado decorava suas faces bem clareadas por pancake branco, fazendo com que o reboco se tornasse ainda mais disforme.
Das escadas rolantes, subiram três cosplayers de algum mangá indie lançado há pouco no DeviantArt. Em um dos shoppings daquela avenida, elas iriam competir o melhor visual e também assistir aos garotos numa partida de Pump. As vozes agudas tremulavam com risinhos agressivos, os olhos se contraíam e se esticavam de maneira medonha conforme o formato europeu se tornou asiático cirurgicamente – as íris, elas escolheram manter azuis e verdes. As rogues rangeram os dentes, erguendo suas mãos cheias de unhas postiças afiadas. O trio de garotinhas entrelaçou seus dedos no horror de serem pegas por aqueles seres demoníacos embebidos de fumaça vermelha. Correram sobre a faixa de pedestres pouco após o semáforo ter reluzido em verde. Uma delas virou enfeite de capô, daqueles bem cheios de lacinhos de cetim e babados.
Na rua paralela, uma dupla de asiáticas saía do McDonald’s, segurando dois copos de 500ml de milkshake de algo que poderia parecer chocolate com biscoito. Numa mão a bebida, na outra o celular gigante e com o dobro do peso, meta atingida a partir de uma vasta coleção de chaveiros com miniaturas de idoru, kawaii stuff e deformidades que brilhavam nas cores do arco-íris conforme a campainha do aparelho reagia. Por Bluetooth, as duas trocavam fotos da noite anterior, quando foram numa balada nikkei procurar um namorado ou um ser reprodutor que pudesse perpetuar o gene nipônico.
Lynx acabava de se livrar das telhas de vidro escuro , dos neons, das grandes vitrines de LCD e das modelos em holograma do boulevard. Os cabelos anis se enroscaram na boca escancarada, nos lábios rachados pela sede, péssimos cuidados e pelo efeito colateral do substituto de anfetamina. Os dedos entortados pelas consecutivas estaladas ajeitaram, trêmulos, os fios ásperos atrás da orelha esquerda adornada por brincos de argola preta e por um soquete não coberto por uma capa cor-e-textura de pele.
A saliva foi engolida com dificuldade, como se fosse sólida e grande tal qual as pedras brancas que preenchiam um vaso de flores artificiais com miolo de fibra ótica iluminada. Foi chegando perto da sarjeta quando o semáforo piscou em vermelho – quarenta segundos permitidos à travessia de pedestres. O trânsito de começo de noite permitia que as ruas fossem salpicadas por carros alinhados. Lynx gastou metade do tempo alcançando o asfalto, pelo qual preferiu caminhar entre os veículos, recortando-os na pela horizontal enquanto o sobretudo de borracha preta se enroscava nos pára-choques menos compactos. Mesmo assim, não teve ânimo de resmungar ou de desferir um golpe contra a lataria cara daqueles citizens.
Tendo cumprido a travessia, as luzes amarelas e vermelhas a agiram tal qual os media dizem por aí na TV: sentia ainda mais fome e sede. Sem chip de crédito nem uma boa desculpa para mendigar, foi surpreendida por dois milkshakes segurados por manequins ambulantes vestidos de Burando. De repente, a língua arroxeada por balinhas de frutas silvestres diet transbordou em saliva amarga e grudenta. Como uma velha sem dentes, ela estalou os lábios e sentiu fios de baba se formarem nas extremidades. Suas mãos cheias de veias salientes se esfregaram no ânimo e na concentração com que as botas de cano alto tilintaram pela calçada de cimento, em passos rápidos e convictos. Os dedos bem esticados permitiram a palma magra de depositar velocidade e impacto na nuca nua da chinesinha que prendera o cabelo castanho com um laço.
O berro e o rosto voltado para trás foram o tiro de uma arma na largada de um campeonato. O bote foi dado pela esquerda, quando o casaco preto elevou-se feito uma capa de vampiro prestes a engolir a vítima, então trêmula sobre as sandálias de plataforma com 20 centímetros de altura. O copo plástico se amassou nas mãos e o líquido grosso quase transbordou pela borda do recipiente, senão pela tampa plástica em forma de Ronald McDonald. A acompanhante estava pronta para sacar da bolsa um aparelho de choque, quando, no entanto, a amiga berrou em mandarim e a levou consigo para o chão decorado por pontinhos coloridos de chiclete recém cuspido. Feito Robin Hood, Lynx correu até o quarteirão seguinte com a riqueza dos nobres em seu poder – só seu.
Em frente à lavanderia 24 horas, dois ghetto boys se animavam ao lado de uma boombox prateada com enfeites luminosos em amarelo. O esquimó curtia sua nova munhequeira de tecido branco, em que fora bordada a inicial de seu nome: “S”. O negro de cabeça raspada deliciava-se com seu palito de dente feito de aço.
“I wanna fuck you like a dog, Bit-Bitch, Bit-Bitch. I’ll have you I swear to God, Bit-Bitch, Bit-Bitch.”
Já cessada sua fuga, a junkie finalmente pôde experimentar a gosma branca e marrom que gelava seus dedos e secava sua garganta. O canudo grosso permitiu que os flocos de biscoito invadissem sua boca num delicioso momento que se repercutiria em uma imagem mental do slogan do McDonald’s, caso Lynx tivesse nascido naquele ano, em que fora aprovada a lei número alguma coisa: todo os cidadãos do país, assim que nascidos (paridos ou projetados), receberiam no cérebro um chip publicitário. Magdalena, sua amiga iraniana dona de um canal de moda para anoréxicas, pagou 1000 créditos para conseguir um igual. Em sua mensagem offline, ela confessava: “queria ter nascido hoje!”
Mas ela continuava sua caminhada preenchida de publicidade apenas nos outdoors, balões e zepelins. A música dos ghetto boys chamou sua atenção, assim como os break dancers que ali demonstravam suas habilidades junto de algumas meninas do parkour, que escalavam os postes de vigilância, em vez de prédios. Foram colados na lente das câmeras stickers com uma caricatura do Obama, presidente dos Estados Unidos na primeira década do século XXI. “Vigilate, we can”, berrou a menina, durante um salto de 3 metros até o chão. Lynx franziu o cenho, estranhando a capacidade da outra, visto que seus membros eram orgânicos, pelo jeito.
Atraída por aquela reunião, a junkie se arrastou pelos vitrais da lavanderia, delineando as unhas pretas pela superfície transparente do estabelecimento. O tamborilar não surtia efeito sonoro: a música preenchia um terço daquela avenida. E isso era incômodo, a ponto de uma caminhonete ali passando disparar contra a calçada um molotov mal feito, porque sequer conseguiu explodir. Lynx riu disso e então, sentou-se próxima ao esquimó que ainda admirava sua munhequeira de tecido branco.
_E aí. – ela começou.
As reticências do esquimó não surtiram muito efeito no rosto dela, que escondia suas bochechas para dentro da boca, enquanto sugava o milkshake. O barulho rouco incomodava a testa bronzeada do esquimó. Seus ombros contraíram assim como sua coluna, ambos incomodados com a presença da estranha. Lynx afastou o copo, voltando-se uma nova vez para o garoto, agora com os dedos indicador e médio sobre os lábios. Então, subitamente, ele reagiu com um misto de simpatia e indiferença. Enfiou a mão dentro do abrigo esportivo, pegando do bolso interno o que ela supôs ser um maço de cigarros. No entanto, os ouvidos ensurdecidos pela música taparam-se num ruído agudo e contínuo até se desfazer numa surdez pós bomba. Sua face acinzentada acobreou-se com a luz vermelha da arma eletrônica que tinha o cano terminado em sua testa.
_Huh. – ela engasgou, a mão ainda na boca, convulsionando.
_Não me leva a mal, dona, mas você é a vadia mais folgada de toda a cidade, tá sabendo? – ele movia a cabeça de um lado para o outro, o sotaque forçado caricaturando o idioma.
Ela jogou o copo de milkshake no chão, onde se espalhara o restinho que ela não conseguiu terminar. Então, juntando as mãos, ela sinalizou como se estivesse orando, implorando por sua vida, “pelo amor de deus”. A fisionomia deturpou-se de tal maneira que a face de vagabunda decaiu à classificação de pobre coitada, moribunda, alma perdida. A cruz de análogo de madeira envernizada com uma miniatura de Cristo crucificado reluziu, no pescoço do esquimó, conforme o trânsito voltou a fluir.
_Dona, se você fosse crente, você num usava o nome d’Ele em vão, tá sabendo? Isso é pecado e pecador tem que morrer. – o gatilho fazia cócegas no dedo do esquimó.
As meninas do parkour se aproximaram rapidamente, uma delas parecendo muito séria, inconformada.
_Que é que tá pegando, Sakari? Quem é essa aí? Que é que ela quer, hein?
_Ela tá querendo tirar é com a minha cara, tá sabendo? Vou fazer essa vagabunda virar queijo suíço, falou? – ele respondeu.
_Se liga, Sakari. Ela só tava pedindo um cigarro, mano. – o homem negro ao lado finalmente se manifestou – Mas que é vadia, é. E se tu comesse ela em vez de matar? Ou vai matar e comer depois? – ele riu, os pulmões falhando um pouco, talvez porque havia terminado de puxar um baseado ainda aceso em sua mão.
_Vocês são uns puta “nojento” mesmo. Larga essa porra, caralho! – a garota do parkour meteu um chute na mão de Sakari, tornando-se ainda mais perigosa que o esquimó.
A pistola caiu assustada no chão, cuspindo uma bala que por pouco não atingiu o pé de Lynx, mas derrubou o pitbull que passeava com um fisioculturista.
_Você tá muito fudido. – riu Lynx, metendo a ponta do dedo indicador no nariz achatado do esquimó.
Ela se levantou, deixando um sorriso para sua salvadora, quem precisaria ter o mesmo ânimo para defender o amiguinho. Logo mais chegaria um saco de músculos e bomba que, no final das contas, nem devia ser tão forte assim. Agora só faltava arranjar o cigarro mesmo.
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Tweets that mention Triz | Count0Write1 -- Topsy.com disse: 23 de julho de 2010
[...] This post was mentioned on Twitter by Lidia Zuin, Elton O. S. Medeiros. Elton O. S. Medeiros said: RT @lidiazuin: Novo conto Count 0 Write 1: "Triz" http://bit.ly/aCP6Bc + @aoLimiar http://bit.ly/9fqca2 [...]
HAHahahah é sempre legal quando alguém se ferra =D
nota: o inicio “Rola pra cá, pra lá. Ajusta um pouco mais pra direita, pra esquerda. Agora mais fundo, depois volta e sai. Volta mais um pouquinho. E sai.” ficou muito, mas muuuuito dubio hehe, naquele outro sentido aliás
Sim, foi a intenção HAUHAU XD