Uma visita ao Samplering
Publicação: 22 de junho de 2010
Ainda em movimento, o carro deixou para trás, pouco antes de alcançar um terço da faixa de pedestres, um fim de cigarro aceso. O cilindro consumido ainda tinha as cinzas ardentes. Fagulhas de brasa espalharam-se pelo vento, pelo asfalto, invadiu a calçada, perdeu-se entre as pernas apressadas na descida. Estava sujo de batom vermelho, estava marcado com as iniciais YSL. Do canto do canteiro, cantou os sapatos de solas gastas o movimento do indigente calvo. Apressado, ele descia ao chão como em louvor à Meca do resto de tabaco. Saliva por saliva: mais ou menos rançosa, que mal faz?
Do outro lado da rua, entre paredes amarelas, uma vidraça transparente delatava três garotas de minissaia de borracha colorida, sentadas em três bancos pretos e giratórios, altos como assentos de bar. Tomavam seus milkshakes com aditivo de substituto de endorfina, tagarelavam uma com a outra, pareciam grandes amigas de um distante passado consumido por horas online: aquela era japonesa, a outra russa e esta era italiana. Todas obrigatoriamente se entendiam por dominar a língua inglesa, mas a russa, com sotaque muito carregado, usava um microsoft de língua antiquado. Diziam elas que Yekaterina era da época da União Soviética, o que a ofendia, mesmo que em seu HD portátil carregasse uma pasta preenchida de foto-manipulações de Stalin, Lênin e Marx ao melhor estilo pós-construtivista. Sabendo somente ela disso, experimentou reanimar o led que se retorcia no canudo cheio de voltas. Estavam, coreografadas, mais uma vez clicando os mouses transparentes e iluminados em verde, rosa e amarelo: testavam diferentes jogos de beleza e cirurgia plástica.
Mais adiante, após a porta de vidro eletrônica se abrir, havia estantes e mais estantes de caixas de software dispostas como caixas de sabão em pó em prateleiras de hipermercado. O salão da Samplering se estendia ao infinito fundo falso de espelho pregado na parede. A meia-luz perturbada por spotlights coloridos dava a impressão que a casa também reservava um palco para a apresentação de bandas. No entanto, um possível DJ ficava muito bem escondido num canto próximo à cantina decorada às breguices de uma estranha década de 60 do século XIX. Tubos de barbeiro, listrados de branco e vermelho, serpenteavam e brilhavam numa alucinógena brincadeira com a fotografia de A Fantástica Fábrica de Chocolate. Os balconistas de cara tingida de laranja por bronzeamento artificial sorriam brancos dentes desgastados até ganhar simetria. Usavam gravatas borboleta amarelas de bolinhas vermelhas e vendiam lanches pré-descongelados, batatinhas e milkshakes com o dobro da quantidade de calorias recomendável ao consumo diário.
Nesse ambiente, um rockabilly boy ajeitava seu topete com um pente platinado. Cultuando sua imagem no reflexo de uma frigideira dependurada na parede mais próxima ao lado de fora do bar, ele se dedicava beijocas no ar e retocava o blush nas maçãs do rosto usando um pincel cuspidor de tonalidade rosa. Atrás de si, a menina de cabelo azul e ondulado ajeitava a gola de sua camisa por cima da jaqueta de couro comprada num brechó reformador de antiguidades indumentárias. Ao fim da vigésima ajeitada “no visu”, os dois repetiram um cumprimento sincronizado de acordo com o reflexo de ambos, na mesma frigideira. O Oompa-Loompa com crachá escrito “Sigmund”piscou para eles e lhes devolveu um positivo dedo indicador.
Como as três prateleiras de softwares ocupavam o centro do salão, os cantos eram preenchidos por estofados de couro vermelho e miniaturas de New Beetle fingindo ser poltrona para mesas ao estilo pin-up snake bar. Uma garçonete apertada num corpete escondido abaixo do vestido de gola pólo resmungou um “pois não” para duas surgirls que queimavam crack num tubo customizado ilegalmente com figuras da Hello Kitty e seus amigos. As coreanas de olhos muito esbugalhados e cabelos vermelhos pediram, num jogral, batatas sorriso com cheddar e milkshake de morango com aditivo de baunilha. Seus celulares cor de rosa e branco vibravam canções póstumas de Ayumi Hamasaki em pink, roxo, azul, verde…
Sobre a vitrola decorada por neon, apoiados estavam braços gordos e tatuados de um biker loiro e barbado. Ao jogar a primeira das fichas compradas com cartão de crédito falsificado, um holograma de vinis pairava sobre suas vistas. A voz rouca e eletrocutada de uma inteligência artificial sugeria uma faixa de acordo com o reconhecimento de ruídos no lugar. Como os risos estavam se sobrepondo aos cliques de mouse, aos tilintares de copos e a eventuais acidentes com talheres, pratos e netbooks, JunkieBox, a IA, sugeriu um remix vintage de The Cure, por Bellatrix, da canção “Let’s Go to Bed”. O biker prostrou sua língua coberta por uma camada de baba amanhecida, branco-amarelada. Procurou por Motörhead quando a maldita máquina escolheu por si.
Um chute de coturno militar fez os neons da jukebox oscilarem, a voz aguda da cantora se tornar um ruído grave e prolongado até finalmente retornar à elétrica batida eletrônica digna das máquinas de Pump interditadas mais à frente. Um nerd passou pelo biker meneando a cabeça em sinal de desaprovação. Boquiaberto, o grandalhão se sentiu menosprezado pelo ruivo magrela que já havia se afastado, muito mais interessado em seu game para PSP recém adquirido.
Eis que da porta de vidro automática surgem engravatados megacorp asiáticos. Suas peles marrom-amareladas brilhando com o lançamento da Chanel (creme hidratante Shinning Glittering Wonderful Man). Suas maletas foram deixadas para o anfitrião, vestido como um antigo empregado de hotel, fazendo honra aos chapeuzinhos minúsculos e vermelho queimado que se equilibram na nuca, com um cordão enlaçando a cabeça. Feito um macaquinho de desenho animado, o desajeitado finlandês guardou os pertences dos já reconhecidos Asahi.
Tinham alvo previsto: a mesa das coreanas. Assim que uma delas, já chapada, percebeu o luminoso cabelo de um dos megacorp, pôs seu tubo entre as pernas, abaixo da mesa coberta por toalha xadrez vermelha. A outra repetiu o gesto quase ao mesmo tempo, senão pelo delay da droga. Elas deslizaram as nádegas semi descobertas pelas minissaias plissadas, chegaram ao fim da poltrona, tocando com os ombros nus a parede parcialmente coberta por uma chapa de metal engordurada por óleo de hambúrguer. Dois megacorp para cada uma, três pessoas em cada assento.
_Não sei, acho que vou vomitar. – encostada ao lado de um PC, uma rogue revisava no smartphone as fichas dos personagens de RPG mestrado por ela, num fórum internacional.
_Fica misturando essas merdas no milkshake pra ver no que dá. – respondeu o outro rogue, que checava seus replies no Cheatter.
_É, eu to sabendo. – debaixo da mão esquerda coberta por luvas de couro preto sem dedos, ela agora acendia um cigarro com um maçarico em forma de Drácula. Seu cabelo cortado em chanel assimétrico a atrapalhava.
A rogue tirou do USB seu pendrive-pulseira e o pôs de volta ao pulso fino e escondido por um sobretudo de veludo e fitas de cetim. Tinha terminado de copiar as chaves de registro de um jogo ainda há pouco testado como demo no computador em que o colega Blutzt agora checava quantas de suas mensagens pseudo-filosóficas e over dramáticas haviam sido replicadas pelos 3.000 seguidores.
Do balcão, saiu o casal rockabilly. Os dois narcisos decidiram se acomodar numa das mesas, sentando um frente ao outro, dedos entrelaçados, olhos sucumbidos por olhos. “Oh, baby, como você é gata”. “Oh, gato, como você é um arraso”. Uma sessão de frases prontas conduzidas por, finalmente, “I cum blood”.
Enquanto o biker praticava air guitar ao som de Cannibal Corpse, o nerd ruivo erguia seus olhos castanho claro por debaixo do aro colorido e animado em led laranja. “Câncer”, ele murmurou pouco antes de deixar o NeoMario ser atingido por um casco de tartaruga blindado soltando laser. As três garotas de saia de borracha, já tendo deixado os computadores da entrada, ouviram o barulho do impacto da cabeça do moleque contra a vitrine de gadgets.
_Cazzo! – a napolitana berrou com os lábios pink por detrás das unhas azuis.
Sobre a mesa dos coreanos, repousavam pistolas elétricas semi-automáticas. Eram profissionais, daqueles que portam munição e tatuagens nos braços: dragões e samurais. Eram poderosos, daqueles que não verbalizam suas palavras, mas transmitem suas vontades com olhares de canto, torcidas de boca, batuque de dedos na mesa oca. As duas coreanas cessaram seus celulares sincronizados em luz ritmada e passaram a jogar SuperKawaii Snake.
_Vai, caralho… – a rogue girou o pulso esquerdo, olhando para o relógio de led inserido em seu antebraço – Se a gente não for logo, vai ter que pagar entrada. E você não tem dinheiro pra pagar entrada.
_Calma, minha querida Erzsébet Bathory… – resmungou o rogue a digitar um novo endereço, mais um perfil em alguma rede social dedicada aos rogues.
_Não use o santo nome em vão! – berrou a rogue, jogando longe o cigarro, demonstrando suas próteses já aparentes pela diferença entre o tom amarelado de nicotina nos dentes verdadeiros e a brancura exagerada das presas sintéticas. Mais como lobisomens, os adolescentes viciados em Vampiro, a Máscara, rosnavam um para o outro.
E o cigarro rolou chão branco à frente. Solas de borracha de tênis Nike esmagaram a ponta de fumo antes que ela atingisse um copo de vodka derramado no chão. Sorte aqui, novidade lá: um murro na mesa fez com que os tubos de crack das coreanas fossem ao chão. O som de vidro partido engrossou o silêncio fúnebre daquela mesa que antes eram risos e voz chata de j-pop. Um dos megacorp desceu a cabeça para debaixo da mesa e descobriu o resíduo a se espalhar por entre pedaços de cabeça de Hello Kitty partidas no piso. Sua resposta foi um polegar levantado para o teto, voltando-se para o chão.
_Jung mal mi an hae!! Jung mal mi an hae!! – berravam as duas, em um choro escancarado e tão mais rápido quanto o golpe certo de um canivete suíço contra a garganta de uma. Não precisavam do barulho de tiros, não é mesmo?
_Nal jug-iji ma – o mesmo movimento foi repetido por outro megacorp, um que ainda se mantinha sem vestígio do sangue que era cuspido pelo pescoço da coreana já desfalecida sobre a toalha xadrez vermelha.
_Oh, baby, você me acende. – retribuía o rockabilly boy enquanto os dois dividiam um combo milkshake de morango com kiwi.
_Oh, gato, você é um broto. – sorria a mulher de cabelos azuis. O ruído de fim de bebida grunhia entre as duas cabeças, sobreposto pelos gritos agudos da coreana que convulsionava no chão.
As três garotas cessaram a marcha sobre saltos de botas de couro branco. Olharam para a cena enquanto os quatro megacorp se levantavam, ajeitando suas gravatas um após o outro, como se fossem réplicas. Pegaram suas maletas e desceram os três degraus que separavam a Samplering da calçada encardida do lado de fora.
_Please, could you help those girls? I think they drank too much, you know? These asian bitches. – riu a russa, sentindo um vigoroso cotovelo anoréxico lhe atingir nas costelas – What’s the matter with you?!
Pelos cabelos, as três se resolviam de alguma forma. Bastou um salto quebrar para que a primeira fosse ao chão e um dos gritos fosse contido. Bastou uma mecha do aplique ter saído para que a segunda ao espelho tivesse recorrido. Bastou um brinco caído para que a terceira engatinhasse pelo piso em busca da bijuteria trazida da Estônia.
O biker, tendo reparado que logo a moça da higiene vinha de balde, charuto e escovão para limpar a cena do crime, tratou de esfregar a esférica barriga no chão umedecido em rubro.
_Oh, no, no! I need a live woman to fill with my fluid. A delicate girl to mutilate, fuck and kill! – agora ele chorava sobre um porta-retrato duplo retirado do bolso de trás da calça jeans. Uma foto para cada coreana estirada feito boneca-manequim de vitrine.
O rogue ainda estava muito interessado pelos novos pedidos de amizade num site de relacionamentos com garotas tailandesas. Assim, Bathory-chan resolveu dar o fora dali, tomando o nerd ruivo pelos cabelos.
_Ah mãe, deixa só eu jogar mais um pouquinho…
Tweets that mention Uma visita ao Samplering | Count0Write1 -- Topsy.com disse: 22 de junho de 2010
[...] This post was mentioned on Twitter by Romeu Martins and Lidia Zuin, Elton O. S. Medeiros. Elton O. S. Medeiros said: Já diria sei Creyson: "Eu arrecomêndio!"… Novo conto de @lidiazuin "Uma visita ao Samplering", agora no #aoLimiar – http://bit.ly/aDwrVY [...]
Hahaha… li e esqueci de comentar!
Gostei! Por alguma razão o lugar me pareceu uma versão cyberpunk da ‘Leiteria Korova’ do “Laranja Mecânica”… principalmente no começo.
Além, claro, da saudosa (se que esta seria a palavra certa a usar) do “Vampiro, a Máscara”!
=D